Heloísa Helena será o fel que Glauber Braga deixou para a direita
"Para quem me odeia pela minha coerência, minha coragem, pelo amor que eu tenho aos pobres, excluídos e marginalizados, podem continuar me odiando mais ainda".
Neuton Corrêa, do BNC Amazonas
Publicado em: 16/12/2025 às 19:32 | Atualizado em: 16/12/2025 às 19:37
No último dia 10/12, parlamentares da direita, da ultradireita e do centro juntaram-se para se livrar do deputado federal Glauber Braga (Psol-RJ). Eles queriam cassar o mandato do parlamentar e deixá-lo inelegível por oito anos. Mas eles não conseguiram. Um acordo atenuou a situação e ele foi punido com afastamento por seis meses.
Para explicar brevemente o caso, Glauber Braga foi acusado de agredir um integrante do MBL que lhe seguia como sombra, xingando a mãe do parlamentar.
Os conservadores e ultraconservadores não conseguiram conviver com os discursos ásperos e biliares do parlamentar fluminense. Glauber sempre foi taxado por seus oponentes como um político radical, embora tenha caracterizado suas falas pela fundamentação de sua oratória.
Mas, talvez, a direita não tenha se dado conta de que ele seria substituído por alguém que leva às últimas consequências o radicalismo político.
O quadro que substituirá Glauber Braga na Câmara dos Deputados será a ex-senadora Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho (Rede). Ela tomou posse nesta terça-feira, dia 16.
Alagoana de Pão de Açúcar, Heloísa Helena, mesmo sendo do PT, tornou-se ferrenha crítica ao governo Lula, no mandato da eleição de 2002. Pra começar, foi contra a indicação de José Sarney para a Presidência do Senado. Depois, insurgiu-se contra Henrique Meirelles para o Banco Central. E entornou de vez seu radicalismo contra o próprio partido na Reforma da Previdência do governo Lula. Saiu do PT, criou o Psol, hoje está na Rede e brigando com a colega Marina Silva.
Assim sendo, se ainda conservou o rigor da defesa de sua convicções políticas e ideológicas, Heloísa Helena deverá ser o fel que a direita tentou ruminar da convivência com Glauber Braga.
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Cartão de visita apresentado
Heloísa Helena não esperou nenhum instante para apresentar seu cartão de visita. Em seu discurso de posse, hoje, ela começou dizendo que está de volta ao Congresso Nacional por causa de uma injustiça. E já lembrou de seu caso.
“Eu nunca imaginei que voltaria ao Congresso Nacional por causa de uma injustiça tão grande como eu vi o Deputado Glauber vivenciar, assim como eu também já vivenciei”.
Sr. Presidente Deputado Fraga, Parlamentares, servidores da Casa, na verdade, eu nunca imaginei que voltaria ao Congresso Nacional por causa de uma injustiça tão grande como eu vi o Deputado Glauber vivenciar, assim como eu também já vivenciei.
Depois, ela falou o que pensa sobre a suspensão do mandato de Glauber Braga.
“O deputado Glauber foi suspenso porque desafiou um sistema, um sistema corrupto, carcomido, repugnante, cínico. Não é a primeira vez, não é a primeira vez”.
Leia o discurso, na íntegra
Aqui, neste plenário, há 22 anos, a Deputada Luciana Genro, o Deputado Babá, o Deputado João Fontes e eu, no Senado, passamos por circunstâncias absolutamente humilhantes, porque estávamos defendendo mais de 8 milhões de servidores federais, estaduais e municipais diante de uma maldita reforma da Previdência, que roubava direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores. E permanecia o roubo de mais de 10 anos de trabalho daqueles que estavam na iniciativa privada, na informalidade, das mulheres simples que não tiveram acesso à aposentadoria, como as donas de casa, num trabalho exaustivo, repetitivo, não remunerado e não reconhecido socialmente como trabalho. Aqui nós vivenciamos isso, inclusive fisicamente, o Deputado Fraga e os mais antigos, está aqui o meu querido José Antônio, servidor do Senado, que foi meu chefe de gabinete. Quando nós estávamos no prédio do INSS, no prédio do INSS, defendendo trabalhadores e trabalhadoras, imagina, do Rio de Janeiro, eu, alagoana, lá defendendo, e fomos arrancados de lá, arrancados pelo choque do Palácio do Planalto, jogados para fora do prédio do INSS, espancados covardemente, com bombas de gás lacrimogêneo.
Então, a gente tem que dizer essas coisas porque a moral seletiva, a ética das conveniências, o moralismo farisaico, que condena no adversário, que protege no seu aliado, a gente não pode aceitar que isso seja feito. Pagamos um preço muito alto, fui derrotada eleitoralmente diversas vezes, pelos podres conluios palacianos, entre um setor de esquerda e a cínica oligarquia alagoana. Na verdade, se merecem. Vergonha eu teria se tivesse me vendido, mesmo agora e muito, muito tempo sem mandato, feito náufrago no maremoto, mas sem jamais assinar a rendição vergonhosa da covardia. Esta semana circularam pela Internet vídeos dos nossos duros combates, no mandato de Senadora por generosidade de Alagoas, e minha volta a este Congresso pela votação que o Rio me ofertou, o Rio de Janeiro que viu meu pai pedreiro voltar ao Nordeste com o coração partido, corpo quebrado, sonhos destruídos, com meu irmão mais velho nascido no Rio enrolado em trapos e acabou assassinado em Alagoas.
Meu compromisso não é pautado nos malditos conluios da Realpolitik, na qual sorriso na frente e facada nas costas são comuns. Meu compromisso é com o Brasil real, é o Rio profundo, distante dos cartões postais, com pessoas em alta vulnerabilidade econômica, social e ambiental, com os filhos da pobreza que saem desesperados nas madrugadas para trabalhar, os que passam na madrugada entre urina e fezes nas ruas, os que vivem em territórios dominados pela maldita violência, sem poder viver a dignidade da infância, com escolas que não funcionam em horário integral, mesmo tendo a belíssima e visionária ação de Brizola e Darcy no Rio de Janeiro, dos jovens que são mão de obra escrava das facções criminosas neste País desmoralizado, que aceita como principal causa de morte da sua juventude a violência letal e intencional. Famílias desesperadas nas redes sociais, fazendo vaquinha para procedimento cirúrgico, exames, fármacos, demonstrando a vergonhosa omissão do poder público, pois temos a legislação mais avançada do mundo, com as mulheres, especialmente as chefes de família, sozinhas, que vivenciam a mais ofensiva das covardias machistas, em um emaranhado irresponsável do não cumprimento pelos governos da execução orçamentária para viabilizar a prevenção das violências. Mulheres gigantes, curvo-me a vocês, mulheres gigantes.
Meu compromisso com trabalhadoras e trabalhadores da saúde, da educação, segurança pública, assistência social, que cuidam daqueles que foram deixados para trás, feridos, sangrando. Deixados para trás sem País, sem Nação, sem pátria, os sobreviventes, vítimas diretas de uma minoria que segue erguendo seus muros de injustiça social, explorando de forma predatória a natureza, parasitando a força de trabalho de um povo, para que uma maioria sofra porque uma minoria (falha na transmissão), e segue acumulando, de forma insaciável, mais riqueza, mais capital.
Aqui lutarei como sempre lutei, sem ceder, sem me ajoelhar a nenhuma idolatria política, esteja ela onde estiver. O Governo Federal passado, infelizmente, agiu feito um soldado covarde e sem honra, deixando seu povo ferido para trás, com mais de 700 mil óbitos. Preferiu o tom jocoso, frio, ridículo, antes da responsabilidade presidencial. Não se comoveu com a imensa dor e ainda ousou tentar um golpe de Estado, e a história da humanidade mostra que todas as ditaduras apoiadas e aplaudidas por todas as vertentes ideológicas, todas as ditaduras são burocracias corruptas, assassinas totalitárias.
Assim e aqui lutarei sem servilismo, sem conciliação com o atual Governo Federal em qualquer traição de classe, no entreguismo de terras raras, na privatização de rios e outros setores estratégicos. Estarei aqui sem abrir uma única concessão a quem concilia com o capital, enchendo a pança dos poderosos e do capital financeiro, às custas da imensa dor do povo brasileiro. Vamos derrotar a reforma administrativa que penaliza os setores que trabalham diretamente com os mais pobres. Vamos ampliar direitos dos mais frágeis, que vivenciam a hierarquia perversa pela cor da pele, pela forma de amar, pela religião que professam pelo lugar que vive.
É fundamental criar o observatório das execuções orçamentárias para acabar com essa pouca vergonha da execução, que apenas beneficia o grande capital, os apodrecidos acordos políticos, e fragiliza todas as políticas sociais que dependem diretamente do orçamento público.
E também temos a obrigação de abrir para investigar, com toda a nossa potência e coragem, a CPI do Banco Master, quem for podre, que se quebre, esteja onde estiver.
A quem me respeita, um cheiro no coração.
Meu profundo amor à minha família solidária, à minha mãe, que foi a mulher mais corajosa que já conheci na vida, aos que sempre estiveram ao meu lado, enxugando minhas lágrimas, me levantando das quedas, lutando ao meu lado nos duros combates da minha trajetória todos os dias.
Obrigada aos militantes, dirigentes, Parlamentares da Rede Sustentabilidade, da Federação PSOL REDE. Muito obrigada, muito obrigada, muito obrigada. (Palmas.)
Obrigada aos que nos acolhem e respeitam, independente das suas convicções ideológicas, independente do partido a que são filiados.
Obrigada a quem respeita a coerência, a quem respeita a coragem, esteja ela onde estiver.
E aos que me odeiam, estejam onde estiverem, em qualquer vertente ideológica: não se avexem, não, que o tempo passa rápido. Daqui a pouco o Deputado Glauber está de volta. Mas eu vou aqui trabalhar muito! Vou trabalhar muito. (Palmas.)
Para quem me odeia pela minha coerência, quem me odeia pela minha coragem, quem me odeia pelo amor que eu tenho aos pobres, excluídos e marginalizados, podem continuar me odiando mais ainda.
Um cheiro grande!
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados, em 16/12/2025
