Por Wilson Nogueira*

 

O resultado desse primeiro turno para a Presidência da República confirma um Brasil polarizado na sua escolha entre ideias que vão do centro-esquerda à extrema esquerda e as que se aglomeram em torno de valores e sentimentos antidemocráticos e religiosos fundamentalistas.

O voto revela, assim, que o Brasil atual é feito de vários brasis, costurado em ideias contraditórias, e que a eleição, por meio do debate político, serviu para revelá-lo. O esclarecimento sobre essas oposições difusas do primeiro turno deve tornar o segundo mais edificador para o eleitor.

Ao menos é isso que se aguarda das campanhas. Espera-se que haja um embate sincero de propostas de governo, com cada um dos candidatos assumindo as suas ideias sem evasivas, para que o eleitor forme a consciência do voto e escolha aquele que melhor representa esses brasis que existe em cada um(a) de nós.

Brasis que, certamente, representam a nossa unidade diversa, porém, aquela sustentada no acolhimento do outro em nós. Não dá para pensar em um país diferente do que ele é na realidade. Não dá para imaginar um Brasil governado somente para as sensibilidades do mercado, ente atrás do qual se escondem empresários de interesses escusos, apostadores da avenida Paulista ou de Wall Street, agrosojeiros que colocam o superlucro acima do ambiente sustentável etc.

O Brasil precisa de um governo que inclua no seu ideário e práticas as populações pobres que vivem nas favelas e nos rincões interioranos. Essas, em que pesem as atenções de governos progressistas, ainda padecem pela falta de assistência básica do Estado na educação, saúde, segurança, emprego e saneamento.

A escolha deste segundo turno, portanto, é mais complexa do que imaginam as vãs filosofias. Implica, acima de tudo, o reconhecimento de um Brasil tecido por cada um(a) do(a)s brasileiro(a)s pobres, remediado(a)s, rico(a)s, crentes religioso(a)s, ateus, ateias, LGBTQ+,is indígenas, quilombolas, sem-teto, sem-terra etc.

A incompreensão dessa diversidade pode acirrar os conflitos socioculturais para muito além do período eleitoral, situação indesejável a um país que precisa fortalecer a sua democracia para não se afogar em ideias e práticas autoritárias.

O brasilzão já superou tempos mais sombrios: uma ditatura militar de trinta anos. Mais recentemente, transpôs crises políticas profundas, como o impedimento de um presidente (Collor) e uma presidenta (Dilma) e sobrevive a sucessivos escândalos políticos e, neste momento, tem um ex-presidente preso (Lula), embora com julgamento inacabado. Há, portanto, uma experiência acumulada desta democracia que, honestamente, precisa ser aperfeiçoada a cada instante.

O povo, por sua vez, tem feito a sua parte indo às urnas para se posicionar com base naquilo que consegue perceber no jogo eleitoral, e a percepção do eleitorado, agora, é a da necessidade de mais esclarecimento sobre os programas de governo dos dois candidatos.

E a nossa contribuição, neste contexto, é fazer chegar ao eleitor, pelo processo interativo das novas mídias e das redes sociais digitais, a pluralidade de propostas e ideias dos dois candidatos selecionados pelas urnas, para que a sua escolha represente avanço e não retrocesso em relação às conquistas sociais e políticas já asseguradas.

No mais, é preciso enfatizar que, na democracia, até prováveis equívocos são passíveis de correção em pleno voo. Esse é um aviso para aqueles que se esquivam da verdade, da honestidade e da decência no intuído de enganar o eleitor para obter, a qualquer custo, o controle do poder pelo poder. No jogo democrático, a transparência tem valor inestimável, e é com esse caráter que ele deve ser jogado.

Que o eleitor se empodere nesse jogo e torne a política favorável às suas demandas socioculturais, as quais são muitas.

Bom debate!

 

*O autor é sociólogo, jornalista, mestre e doutor em sociedade e cultura na Amazônia, pós-doutorando em ciências da comunicação e professor visitante da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

 

Ilustração: Reprodução/site Aberje