Presidenciáveis vão receber a Agenda Zona Franca de Manaus 2050
Entidades industriais lançam plano estratégico de longo prazo para a Zona Franca de Manaus e focarão nos candidatos à Presidência.
Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília
Publicado em: 09/06/2026 às 18:28 | Atualizado em: 09/06/2026 às 18:28
A Federação e o Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam e Cieam), protagonizaram nesta terça-feira (9), na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília, o lançamento da Agenda Estratégica “Zona Franca de Manaus 2050”. O evento reuniu empresários, pesquisadores, autoridades e representantes do setor produtivo de todo o país.
O documento que propõe diretrizes para transformar a Amazônia em referência mundial de desenvolvimento sustentável, inovação tecnológica e bioeconomia, será entregue aos candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026. O objetivo visa influenciar a formulação de políticas públicas para a Amazônia nas próximas décadas.
Entre as propostas prioritárias da Agenda ZFM 2050 estão a criação de uma nova governança para o programa Zona Franca de Manaus, investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, ampliação da infraestrutura logística e digital, fortalecimento da educação profissional, regulamentação de fundos voltados à sustentabilidade e estímulo à bioeconomia.
Na abertura da conferência, o presidente da Fieam e vice-presidente da CNI, Antônio Silva, fez uma defesa contundente da Zona Franca de Manaus (ZFM), classificando o modelo como um dos mais eficientes instrumentos de desenvolvimento regional já concebidos pelo Estado brasileiro.
“A Zona Franca de Manaus não representa um prejuízo para o Brasil. Ao contrário, ela é um dos mais eficientes instrumentos de desenvolvimento regional já concebidos pelo Estado brasileiro”, afirmou.
Segundo ele, os incentivos fiscais concedidos à região não configuram privilégios, mas mecanismos de compensação para os desafios logísticos, geográficos e estruturais da Amazônia Ocidental.
“Os incentivos não constituem um privilégio. São mecanismos constitucionalmente garantidos para equilibrar custos que não existem em outras regiões do país”, destacou.
Silva lembrou que o Polo Industrial de Manaus encerrou 2025 com faturamento superior a US$ 41 bilhões, mais de 132 mil empregos diretos e cerca de 600 mil postos de trabalho indiretos, ressaltando que seus efeitos econômicos ultrapassam as fronteiras amazônicas.
O dirigente também destacou o papel ambiental da Zona Franca, apontando o modelo como um exemplo concreto de conciliação entre crescimento econômico e preservação da floresta.
“Enquanto muitos países buscam formas de conciliar crescimento econômico e preservação ambiental, o Brasil possui na Amazônia um exemplo concreto de que isso é possível”, afirmou.
Ao apresentar a Agenda ZFM 2050, Antônio Silva enfatizou que o documento vai além de um plano econômico.
“Trata-se de uma visão de futuro construída para fortalecer a competitividade do modelo e posicionar a Amazônia como protagonista de uma nova economia baseada na inovação, na tecnologia e na sustentabilidade”, declarou.
Política de Estado
Por sua vez, o presidente do Conselho Superior do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Luiz Augusto Rocha, reforçou que a Zona Franca deve ser compreendida como uma política de Estado e não como um programa de governo.
Segundo ele, o modelo ajudou a preservar mais de 97% da cobertura florestal do Amazonas e se consolidou como uma das principais ferramentas de ocupação econômica sustentável da região.
“A Amazônia está no centro da disputa geopolítica mundial. Precisamos olhar além dos ciclos eleitorais e construir uma estratégia de longo prazo”, afirmou.
Desigualdades regionais
A apresentação técnica da Agenda ZFM 2050 contou com a participação do economista Márcio Holland, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Holland alertou que o Brasil continua convivendo com profundas desigualdades regionais e que a Amazônia exige soluções específicas.
“Como economistas, falhamos ao defender que haveria uma convergência natural de renda entre as regiões. Infelizmente, o gap de desigualdade persiste”, afirmou.
A empresária Rebecca Garcia, diretora da GBR Componentes, ex-superintendente da Suframa e ex-deputada federal, defendeu que a Amazônia seja analisada a partir de suas peculiaridades.
“O maior equívoco é querer comparar a Amazônia com o resto do país. Nós vivemos numa região que tem desafios permanentes”, afirmou.
Rebecca ressaltou que a Zona Franca continua sendo o principal instrumento de geração de emprego formal na Amazônia Ocidental.
Ela também destacou o potencial da biodiversidade amazônica para a produção de novos medicamentos, cosméticos e tecnologias.
“Nós temos o maior celeiro de biodiversidade do planeta que ainda não conhecemos completamente”, observou.
Geopolítica, soberania e infraestrutura
Na segunda mesa da conferência, o debate girou em torno da geopolítica, da soberania nacional e dos gargalos logísticos da região.
O deputado federal Capitão Alberto Neto classificou a Zona Franca como o principal projeto de Estado de longo prazo do país e rebateu críticas relacionadas à renúncia fiscal.
“Se a gente perder a indústria da Zona Franca de Manaus, ela não vai para São Paulo. Ela vai para o México ou para o Paraguai”, afirmou.
O parlamentar também defendeu a ampliação das Áreas de Livre Comércio na região de fronteira e investimentos permanentes nas hidrovias amazônicas.
Ciência e tecnologia
Representando o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o subsecretário Dorival da Costa dos Santos afirmou que a Amazônia ocupa posição central na nova geopolítica climática mundial.
“A Zona Franca de Manaus é o maior experimento de desenvolvimento regional do mundo”, declarou.
Para Dorival Santos, o debate sobre a floresta já superou a dicotomia entre produção e conservação.
“A agenda não é mais produzir ou preservar. É produzir preservando”, sintetizou.
Infraestrutura e desenvolvimento
A necessidade de investimentos em logística foi um dos consensos do encontro. O diretor da Super Terminais, Marcelo Di Gregorio, cobrou soluções permanentes para a navegabilidade dos rios amazônicos.
“Qual será o mecanismo capaz de garantir que esses investimentos aconteçam de forma permanente? Tivemos prejuízos bilionários nos últimos anos”, alertou.
Já o superintendente da Federação das Indústrias de Rondônia (Fiero), Gilberto Baptista, chamou atenção para os custos do transporte regional.
“Levar um contêiner de Porto Velho a Manaus custa o mesmo que transportar de Manaus a Xangai”, afirmou.
Ao final da conferência, prevaleceu a avaliação de que a Amazônia precisa deixar de ser vista apenas como um desafio nacional e passar a ser reconhecida como uma das principais soluções para o futuro econômico, ambiental e estratégico do Brasil.
Foto: Divulgação
