Por Neuton Corrêa, da Redação

 

O distrito de Cucuí, povoado distante a quase 200 quilômetros da cidade de São Gabriel da Cachoeira, no norte do Amazonas, e da sede da brigada do Exército brasileiro instalada no alto rio Negro, na tríplice fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela, está sob controle de narcoterroristas colombianos.

A informação aparece em dois parágrafos do editorial do jornal O Globo desta segunda-feira, dia 13, em crítica às Forças Armadas do país, com o título: “Crise da Venezuela expõe fragilidades de militares do Brasil”.

De acordo com o matutino, o local é ocupado pelo Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), que, segundo o editorial, cresceu e se armou nos últimos meses com o apoio do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

 

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O editorial diz que “o cenário nos 2,1 mil km da fronteira Norte requer atualizações urgentes no planejamento”. E acrescenta:

“Assistiu-se nos últimos anos à expansão das organizações narcoterroristas em solo venezuelano. A cleptocracia chavista atraiu, armou e legitimou como “força auxiliar” de defesa do país o Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), facções dissidentes das Farc, paramilitares como Rastrojos e Águilas Negras, e um núcleo do Hezbollah, grupo fundamentalista islâmico xiita do Líbano, patrocinado pelo Irã.

O ELN, que em janeiro matou 21 pessoas em ataque com carro-bomba em Bogotá, consolidou nesses cinco meses o domínio de cidades do sul da Venezuela, nos estados de Amazonas e Bolívar, que fazem fronteira com o Brasil. Tornou-se força hegemônica em Puerto Ayacucho, capital do Amazonas venezuelano, e já controla distritos rurais situados a apenas 500 km dos postos militares brasileiros em Cucuí (AM) e Urimatã (RR)”.

Há muito, militares do Comando Militar da Amazônia (CMA) falam do avanço do narcotráfico para o Amazonas.

A novidade, agora, é a ligação com a crise na Venezuela.

 

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Leia o editorial

Crise da Venezuela expõe fragilidades militares do Brasil

O colapso institucional da Venezuela, provocado pela cleptocracia liderada por Nicolás Maduro, era previsto pelas Forças Armadas brasileiras. Imprevista na Defesa externa foi a velocidade da convulsão no país vizinho do Norte. Daí a surpresa e o improviso que permeiam ações de contingência em zonas fronteiriças dos estados de Amazonas e Roraima.

A falha teve origem na qualidade das avaliações sobre a fragmentação da Venezuela realizadas pelos comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica no último quinquênio. A corrosão institucional foi, em geral, tratada de forma tópica, com relativa superficialidade, até em documentos ostensivos. Somou-se a ambiguidade de uma diplomacia impulsionada pelo ativismo interesseiro de governos do PT que apoiaram explicitamente a ditadura chavista.

O processo de desmoronamento do Estado venezuelano impõe às Forças Armadas brasileiras uma reflexão, autocrítica mesmo, sobre a atual forma de organização, informação, análise, disponibilidade de meios adequados e agilidade na mobilização preventiva para defesa do território. O cenário nos 2,1 mil km da fronteira Norte requer atualizações urgentes no planejamento.

Assistiu-se nos últimos anos à expansão das organizações narcoterroristas em solo venezuelano. A cleptocracia chavista atraiu, armou e legitimou como “força auxiliar” de defesa do país o Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), facções dissidentes das Farc, paramilitares como Rastrojos e Águilas Negras, e um núcleo do Hezbollah, grupo fundamentalista islâmico xiita do Líbano, patrocinado pelo Irã.

O ELN, que em janeiro matou 21 pessoas num ataque com carro-bomba em Bogotá, consolidou nesses cinco meses o domínio de cidades do Sul da Venezuela, nos estados de Amazonas e Bolívar, que fazem fronteira com o Brasil. Tornou-se força hegemônica em Puerto Ayacucho, capital do Amazonas, e já controla distritos rurais situados a apenas 500 km dos postos militares brasileiros em Cucui (AM) e Urimatã (RR).

Atadas à lógica secular da concentração ao longo da faixa urbana litorânea, as Forças Armadas nacionais precisam se reinventar a partir da Amazônia. Comandos militares gastaram décadas entretidos no falso debate sobre a “autonomia indígena” e a “internacionalização” por ONGs estrangeiras. Agora, se deparam com ameaças reais representadas por um Estado falido e pelo avanço do narcoterrorismo em direção à fronteira Norte do Brasil. O ELN estacionou à distância equivalente entre Rio e São Paulo.

A Amazônia é metade do território brasileiro, mas continua sob rarefeita proteção e vigilância militares. É preciso mudar o foco na política, na estratégia, na estrutura e nos meios de Defesa externa, que, hoje, consomem 1,4% do Produto Interno Bruto, com mais de 95% dos recursos concentrados no Sul e no Sudeste.

 

Foto: Facebook/Jefferson Dos Santos Navroski