A triste noite de São João

Publicado em: 27/06/2009 às 00:00 | Atualizado em: 27/06/2009 às 00:00


Neuton Corrêa*

O terreiro de Mãe Emília estava trançado de bandeirinhas. O cheiro da pipoca atravessava a rua para convidar quem ainda estava em casa. Quatro barraquinhas serviam tacacá, mingau, banana e milho cozido. Ao centro, a fogueira ardia. Ao lado da labareda, homens vestidos de branco e mulheres saiúdas batiam palminhas para brincar com o boizinho.

O Zé Carlos carregava sua última cria, enquanto seus outros três filhos se penduravam na bainha de sua bermuda. A Célia se arrastava com bengala, mas sempre rindo e dançando. Dona Pata estava amuada. Foi proibida de tomar quentão. Os filhos do Paulo estavam por ali atirando peido de velha para assustar as meninas sassariqueiras.

A noite de São João estava completa, porém comportada demais para o grande número de crianças que brincava ali. Ao chegar à festa, circulei o quintal com meu olhar. Vi a Mariana abraçar o tio. Tupi, Kaique, Diegão e o Segundinho, meu filho, estavam sentados, dando mostra de que a infância por eles já passou. Tudo normal.

Notei, então, que a calma tinha uma razão: meu pequeno vizinho não estava ali.

Mas não demorou muito para eu ser avisado pelo Nenca: “Tu sabes o que aconteceu com o Victor?” Balancei a cabeça, respondendo que não, mas meu pensamento se apressou em sentenciar: “Não pode ter sido coisa boa”.

Victor é o Marcus Victor. Tem cinco anos. Escrevi uma crônica sobre ele, com o título “Meu pequeno vizinho”. Faz pouco mais de dois meses. Lembram? Victor foi abandonado pela mãe assim que o pai foi preso. Naquela época tinha três anos idade. Desde então passou a viver com a tia. Esta, viciada, para alimentar a dependência, transformou sua casa em um “fumódromo”, onde se reúne todo tipo de gente.

Por causa desse ambiente, Victor aprendeu a se virar só. Depois que contei aquelas histórias de que ele conhece droga, que sai na vizinhança pedindo comida, que escapou várias vezes de ser atropelado, fiquei sabendo outra. Seu quarto foi invadido por viciados em plena madrugada. Para continuar o sono, pegou a prima (mais nova do que ele) e se agasalhou debaixo do ônibus do “Pam-Pam”.

“Num dia eu acordei, coloquei o motor do ônibus para aquecer e quando engatei a ré, vi, pelo retrovisor, o Victor saindo debaixo do carro”, relatou-me Pam-Pam depois que leu a crônica sobre o menino. Foram essas histórias que me fizeram, a partir daí, olhar com mais atenção o Victor.

Nessa noite de São João, o Nenca não foi o único a falar do Victor. Dona Meire me chamou reservado e me cochichou. “Vizinho, sabe o que aconteceu com o Victor?” Ela contou a história com pouco detalhe, mas suficiente para me deixar chocado, revoltado e penalizado com a situação.

Neste momento, para mim, a festa de São João já não fazia sentido. Ainda queria tomar mais uma cuia de tacacá, quando a vizinha que socorreu o Marcus Victor apareceu e eu me apressei a saber mais sobre a história.

Ela começou com o rodeio e mea-culpa:
– Tu sabes que a gente já tinha avisado o Conselho Tutelar?
– Sim, concordei.
– Eles não vieram.

Ela baixou a cabeça, fez um silêncio e continuou:

– Pois é, disse ela, com lágrimas escorrendo no rosto: O Victor está no pronto-socorro. Foi violentado pelo Paracundera.

A vizinha não conseguiu terminar o relato e eu não esperei a fogueira apagar e deixei o folguedo.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Carlos Myrria.

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