Ambientalista e otário

Publicado em: 03/06/2012 às 00:00 | Atualizado em: 03/06/2012 às 00:00

Neuton Corrêa*

Interrompi minha caminhada de todos os domingos para atrapalhar a passarinhada de um homem que montou suas armadilhas em um igarapé assoreado à beira da Avenida das Torres. Encontrei-o quando ainda alongava os músculos sem imaginar que mais à frente, quatro quilômetros depois, eu o encontraria outra vez.

O Sol acabava de se mostrar por completo naquela manhã, quando ele passou por mim. O homem estava em uma bicicleta e levava, pendurado no guidão do veículo, uma gaiola coberta com um pano branco. Como passou muito perto de mim, pude notar que não era um pano qualquer, mas uma capa, preparada como quem encomenda roupa de alfaiate, que vestia o cativeiro conduzido pela avenida.

Assim que vi a gaiola, lembrei-me de um episódio que aconteceu ali nas proximidades e que me envolveu. Foi em um mercadinho do conjunto Boas Novas, no derredor do bairro onde moro, na Cidade Nova. Lá, nesse comércio, costumava molhar a palavra, mas, por causa de uma grade encapada como aquela do ciclista, fiquei sem clima para continuar frequentando o lugar.

Isso ocorreu no dia em que conversava com o dono de mercadinho e que, de repente, um rapazote apareceu na rua carregando uma gaiola. E eu, já com a palavra encharcada, surpreendi-me com o garoto carregando um passarinho aprisionado. A surpresa era porque imaginava que manter passarinho preso, coisa que via muito na minha infância e que era algo como moda, fosse coisa do passado.

Nessa hora, olhei para o dono do bar e disse-lhe, apontando para o garoto:

– Você sabia que eu pensava que passarinhada fosse coisa do passado e que a garotada condenasse isso?

O comerciante, então, baixou a cabeça, riscou o chão no qual sentávamos sobre tijolos que ali serviam de bancos de bar, e assentiu com o que eu dizia. E, encontrando clima para vender meus valores da ética moderna ambientalista, fui além:

– Vou te dizer uma coisa, vizinho: Se eu fosse o pai desse moleque, chamaria ele e diria: ‘meu filho, que gosto tem ver canto de preso?’.

O dono do mercadinho outra vez concordou comigo e comentou:

– É, vizinho, eu vou chamar e falar isso para ele.

Depois, visivelmente constrangido comigo, o comerciante deixou minha companhia e pôs sua mulher para atender. Entendi que ele não havia gostado da conversa e nunca mais retornei ao seu comércio.

Pois bem, enquanto caminhava lembrando-me dessa situação constrangedora para mim, encontrei o ciclista outra vez. Ele já estava dentro do terreno cercado com arame farpado, o que me fez deduzir, já predisposto contra ele, que o homem havia invadido uma propriedade particular para capturar passarinhos. Então, interrompi minha caminhada para atrapalhá-lo.

De birra, fiquei ali, olhando a passarinhada. Ele já havia montando a gaiola em uma galhada perto do igarapé e se preparava para armar uma espécie de rede de pesca, mas não conseguia estendê-la, porque não conseguia abri-la e porque passou a se incomodar com minha presença.

Eu estava preparado para denunciá-lo à Polícia. Havia razões de sobra. Primeiro, por invasão a propriedade particular; depois, poderia acionar o batalhão ambiental, mas minha intenção era constrangê-lo. Mas, minutos depois, ele percebeu minha intenção, pegou seus apetrechos, a bicicleta e foi-se.

À noite, quando achei que minha missão ambientalista do dia já havia acabado, naquela mesma avenida, num mega show com atrações nacionais que participavam da Virada Cultural, encontrei um jovem extremante emocionado com o Seu Jorge e a banda RPM, tentando arrancar uma árvore do canteiro central e fui lá.

Bem, não vou dar detalhes da confusão que se formou. Conto apenas o final, quando o rapaz me procurou e me disse: “Pô, cara, nem tinha me tocado que eu estava dando uma de otário. Vamos lá bater uma foto perto da árvore”. E eu, pensando no risco que corri e também me chamando de otário, aceitei fazer a foto.

*Filósofo e escritor.

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