As lágrimas da pedinte
Publicado em: 17/10/2009 às 00:00 | Atualizado em: 17/10/2009 às 00:00
A presença da pedinte no 215 me deixou intrigado. Assim que embarcou, na primeira parada da avenida Djalma Batista, ela passou a abordar os passageiros em conversas de pé-de-ouvido. Minha reação se dividia entre o desejo de não ser importunado e o de tentar saber o que ela estava falando.
Eu a conhecia de velhos tempos e tinha quase certeza de que ela se lembraria de mim. Mas não me reconheceu, ou não quis me reconhecer, pois logo que se colocou ao meu lado, sequer levantou os olhos. Manteve a cabeça baixa o tempo todo.
Mesmo assim, ainda consegui observar a mudança que o tempo lhe deu. As rugas do rosto e os ralos cabelos, agora brancos, não lhe tiravam os traços daquela senhora que vi desesperada chorando a morte do filho há quase 20 anos. A conversa dela também continuava a mesma. Não diminuiu nem acrescentou uma palavra. Era como se tivesse feito uma gravação e posto para rodar novamente. Fez apenas algumas adaptações na trama.
Quando ouvi a história pela primeira vez, em 1991, confesso que fiquei extremente sensibilizado. Tanto que usei o programa que participava na rádio Alvorada de Parintins para mobilizar uma campanha e ajudá-la. O que ela contava havia acontecido. Era verdadeiro. Passou pelos meus olhos. Como repórter, cobri o drama que se abateu sobre sua família há 18 anos.
Foi em uma tarde quente de domingo do verão daquele ano. Eu era plantonista do fim de semana. A notícia se espalhou como o fogo que destruiu a casa dessa senhora, na testeira de uma ladeira do bairro Santa Rita de Cássia, à época, um loteamento com casebres de palha, entre os quais o dela, que foi devorado pelas chamas.
Ao chegar no local do acidente, o desespero tomava conta dos voluntários que ajudaram a apagar o fogo. O drama não era para menos. Embrulhado por uma rede em cinzas, perto de um pote de barro que permanecia em pé, estava ali o corpo do filho dela, de dois anos de idade, como um pedaço de carvão.
Lembro que após aquele momento um grupo de pessoas se reuniu para reconstruir a casa. Ergueram uma bem melhor. E ela, então, passou a percorrer casa a casa, geralmente, pedindo comida e dinheiro. Quando bateu em minha porta, imediatamente lembrei da aflição dela ao lado do corpo do pequeno Geter.
Fiz o que pude e o que não deveria ter feito por ela: até emprestar-lhe minha Monark, pela qual nutria grande ciúme. Mas dei um basta nisso, quando, em 1995, descobri o outro capítulo de sua história. Talvez o primeiro capítulo do livro que se possa escrever sobre isso.
Dois anos antes do incêndio em sua casa, ela já era pedinte. Aplicava a mesma conversa que passou a usar depois da tragédia da morte de seu filho. Dizia que precisava de qualquer ajuda porque sua casa, na zona rural, havia sido queimada com seu filho dentro.
Quem me contou isso foi a Neia: “O incêndio na casa dela dava para ser visto da minha. Corri para ver e fiquei nervosa porque a mulher que estava chorando a perda do filho era a mesma que há muito tinha procurado a loja (Neia era dona de um supermercado), contando uma história que se parecia com aquela que estava acontecendo naquele momento”, relatou minha amiga, tremendo e apontando para os pelos arrepiados dos braços.
Esta semana, quando a pedinte sentou ao meu lado, tive o impulso de tentar fazê-la lembrar de mim, mas preferi ouvi-la. Só que desta vez ela não falava da morte de um filho. As novidades na história dela eram a morte da neta, carbonizada no incêndio de uma vila no bairro Praça 14, e as lágrimas que rolavam em seu rosto.
*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia-Ufam.
Ilustração: Romahs
