Beiradão reencontra leitores em nova edição

A 3.ª EDIÇÃO DE BEIRADÃO, DE ÁLVARO MAIA, JÁ ESTÁ DISPONÍVEL PELA EDITORA VALER.

ESTE TEXTOBR PUBLICA PARTES DO ESTUDO DOS BAMBURRAIS AOS BEIRADÕES, DE *NEIDE GONDIM, SOBRE A OBRA DO AUTOR.

A preocupação de Álvaro Maia [nesta livro, único romance entre as suas obras] em mapear as regiões limítrofes ao rio Madeira, com os relatos coletados em bancos de canoa, na terra firme ou ilhas indiciam o respeito e a admiração pelos anônimos que conquistaram o Amazonas e domaram rios, como diz, na aventura descoberta de terras ricas em seringueiras mais seivosas.

Diferencia o habitante das ilhas e dos beiradões do vizinho morador dos bamburrais, lagos interiores e igarapés, pela alimentação, moradia e imaginário. São evocados como heróis, pois heroicamente resistiram às doenças, aos índios, à fome e à falta de apoio governamental.

O governo é o grande vilão e só foi possível explicar melhor a inação da política federal em uma narrativa mais alentada, em Beiradão.

O espaço dos contos e de Beiradão é a área circunscrita ao rio Madeira, onde nasceu e para onde ia em férias, entre seus inúmeros afazeres de político.

A borracha impregna a produção artística de Álvaro Maia: os Parintintins foram expulsos de suas terras, os caboclos posseiros perdiam suas moradias e plantações para o nordestino amigo de políticos, o nordestino era explorado pelo conterrâneo no seringal e o tempo se estende entre a procura de seringueiras – coincide com a quebra da economia amazonense em 1907, uma das poucas datas que aparecem nesse romance.

A visão mais ampla do período vai se dar em Beiradão, pois Fábio Moura, ex-seminarista do Crato e personagem central, atua como fio entrelaçador do tecido ficcional.

Firmo Segadais, padre Silveira e o coronel Francisco Moreira são as personagens auxiliares na composição daquilo que poderia ter sido a epopeia da conquista da Amazônia. Com eles dialoga ou trabalha Fábio Moura. Descendia de uma estirpe que “respeitava religiosamente os lares, mas viúvas e trintonas não escaparam à ronda voraz”. Apesar de estar sedimentada em valores rígidos, a sociedade nordestina fingia desconhecer as atividades extraconjugais dos patriarcas e o pai de Fábio não foi exceção naquele cenário rural.

A seca obriga os padres a fechar o seminário, as famílias se desagregam, o empobrecimento é total. Fábio busca a “Amazônia misteriosa”, lera muito sobre as noites na selva, “selva adormecida, e observava que a selva não dorme jamais”.

O ex-seminarista que veio para o Amazonas não estava predeterminado à hereditariedade paterna e o meio não o desviou de manter-se honesto, trabalhador e marido exemplar. Dirigiu expedições à procura de árvores mais seivosas, fez o recenseamento dos seringais do coronel Francisco Moreira, comprou um seringal de “poucas estradas”, nunca enriqueceu, estimulou o plantio da terra pelos empregados, fundou uma escola para os filhos dos seringueiros e os seus próprios, jamais filiou-se a partidos políticos, mas recebeu do governo a patente de coronel sem haver pisado nos quartéis. Era um missionário sem ter sido ordenado padre.

O caráter de Fábio não foi alterado, apesar do meio em que passou a maior parte de sua vida, dos momentos em que viveu – apogeu e derrocada da borracha e ter passado fome, como qualquer seringueiro –, e da herança paterna ou melhor, herança legada a todos os filhos de abastados homens rurais, a fome pelo sexo.

Opondo-se ao caráter dessa personagem central, o advogado Segadais esqueceu os ensinamentos do professor Soriano Albuquerque, professor da faculdade de Direito de Fortaleza, de levar a justiça aos desamparados do interior do Amazonas. Pelo contrário, agindo conforme a situação, poderia conseguir dinheiro e montar o escritório tão sonhado.

No entanto, “Venceu o espírito aventureiro, nada mais. Dormia um explorador na capa do bacharel (p. 46). As ações de Fábio eram mais condizentes com o sacerdócio do que as praticadas pelo padre Silveira. Amigo do dinheiro e amante de mulheres casadas, era respeitado na região, inclusive porque fazia vista grossa ao excessos da bebida e do sexo.

[…]

Essa diferença entre a sociedade nordestina, firmada sob uma tradição patriarcal e a incipiente, de fronteira, sem lei, sem governo, liderada por nordestinos inescrupulosos, e tendo a natureza como cenário, é utilizada pelo narrador na distinção do caráter dos migrantes.

O coronel Moreira enriqueceu, era “dono” do partido político, caiu juntamente com a quebra do monopólio gomífero, as explicações dadas aos seringueiros revoltosos sobre sua falência não os convenceram e as filhas, em férias no seringal, juntamente com a esposa, foram estupradas. Nas ações praticadas pelo coronel está a síntese do que acarretou à região a procura e o desinteresse do mercado internacional pela borracha nativa.

Para lugares habitados pelo autóctone foram homens abnegados, cruéis, assassinos, aventureiros. O meio agudizou os instintos e as tendências decorrentes da inexistência de uma política que normatizasse o fluxo migratório. Ao faltar compradores para o produto extrativo, passagens foram distribuídas para os seringueiros revoltosos e o destino foi Manaus.

Fábio ressentiu-se mais uma vez com a inoperância do governo por não haver estimulado a permanência daqueles homens em terras arduamente conquistadas permitindo que mudassem de coletores para plantadores, projeto que alteraria definitivamente a feição econômica regional. O comportamento de diferentes tipos que vieram para o Amazonas nada tinha a ver com o lugar. Adaptavam-se a ele segundo suas conveniências.

Diferente da rigidez e do fatalismo naturalista, a incidência do meio amazônico sobre as personagens, no romance de Álvaro Maia, modificará o conquistador saudoso da vida de aventuras e atropelos, sem a mesmice do dia a dia em plagas nordestinas.

[…]

O realismo das cenas lembrada pelo padre Silveira em suas desobrigas é justificado como “Gente estoica, sem gemidos e protestos ante o nada”.

Aqui e acolá surgem verbos (“rosnou padre Silveira”, “correntezas rosnavam”), explicações justificadas e conceitos que iniciam a presença da estética naturalista, tal como ocorrido a Lauro, filho de Fábio, ante a insistência de Bertoldo, porta-voz de Miguel Tinoco, para que o menino de oito anos fosse cursar um seminário no sul. São frases ou palavras que poderiam confundir o leitor de Beiradão com uma obra de extração naturalista.

[…]

O narrador esclarece que Lauro [o menino de oito anos] fora amamentado pela parintintim Narcisa e o companheiro de folguedos era um índio. A assimilação da cultura autóctone não iria se dar numa forma abrupta, inclusive porque o menino “crescia entre as orações a Deus verdadeiro do padre Silveira e ao Tupã de Narcisa”.

As diversas atividades de Fábio levaram-no a conhecer a região, seja por terra ou em canoa, e foi nessas viagens que ouviu ou reproduziu as histórias que compõem Beiradão. Dir-se-ia que são contos que sucedem narrados pela personagem central, por Segadais, padre Silveira, remeiros e as lacunas são preenchidas pelo narrador onisciente.

O abnegado, o missionário, o aventureiro fazem parte do mosaico que representou a conquista Amazônia. As ocorrências criminosas contra impúberes são justificadas como inerentes àquele período inicial, desenvolvido paralelamente com a cobiça e a aventura. Não mais prisão, inferno ou éden, mas a compreensão de uma natureza rica, variada e ao mesmo tempo inclemente nos seus ciclos climáticos. Pelo sofrimento o homem nordestino se redimiu das proezas nefandas cometidas no passado, e “A terra vinga-se pela nostalgia, endoidando o que tenta fugir ao seu fascínio” (p. 105).

Sobre o autor

Álvaro Botelho Maia foi um grande intérprete da Amazônia, pois soube entendê-la. Sem mitificá-la, elegeu o homem como objeto central daquele mosaico argamassado pela economia gomífera. Nascido no seringal Goiabal, no município de Humaitá, tem no rio Madeira como limite para transcrever as histórias ouvidas de amigos humildes e que jamais sonharam entrar como coadjuvantes na saga que foi a conquista da Amazônia, pois explorar as terras do alto Madeira significou alargar o território brasileiro com a expulsão dos Parintintins para lugares mais centrais ou através de sua pacificação.

Filho de cearense e mãe amazonense, no seringal paterno fez o primário, concluindo o secundário bacharelando-se em 1917 no Rio de Janeiro, na época, a capital Federal. Coadunou as atividades de político com as de jornalista, professor, ficcionista. Foi interventor federal no Amazonas, governador do Estado e morreu como senador em Manaus, no dia 4 de maio de 1969, aos setenta e seis anos.

 

*Neide Gondim  é autora do livro A invenção da Amazônia (Valer, 2019)