Concentra, mas não entra (a pedido)

Publicado em: 19/01/2011 às 00:00 | Atualizado em: 19/01/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

Antes de começar esta narrativa, convém dizer que se trata de um episódio para atender ao pedido da professora Mazé. Para quem não leu a história passada, Mazé inspirou a crônica “Professora Má: minha fã”. E atendo-a porque ela me proporcionou a primeira frustração do ano. Escrevi o texto para que me odiasse para sempre. Mas vejam: assim que leu a história, conseguiu meu telefone e declarou: “por isso, sou sua fã”.

Expliquem-me, amiga e amigo do busão: que figura é essa que não se chateia nem quando é exposta ao ridículo? Ora, pois! Na crônica anterior, contei o bolo que ela deu, ao me convidar para palestrar em sua sala de aula, porém, no dia marcado, foi ela que faltou ao compromisso. Perdeu a hora em um aniversário na noite anterior. Também revelei, senhores, que entre seus ex-alunos ela é conhecida como “Professora Má”. E, diante de tudo isso, ainda gostou da crônica.

Na fase de criação da história, fui advertido pela equipe de palpiteiros, conselheiros e consultores que me ajudam a fazer esta coluna: “passageiro-repórter, você vai ganhar uma inimiga para o resto da vida”, era a advertência comum. O professor Kinho, consultor da crônica, escreveu-me: “você queimou o filme da professora. De tua fã, ela vai passar a inimiga; de ídolo, você passará a desafeto”. E minha esposa me aconselhou: “muda pelo menos a idade. Diz que ela é mais jovem”. E assim procedi, atendendo à esposa e não dando ouvido aos meus consultores.

No sábado que passou, já me preparava para ouvir a ligação telefônica para me avisar: “vou te processar (isso já aconteceu aqui: vocês não sabem, mas um ex-deputado, conhecido como ‘Pirarara’ me processou. Ganhei a questão)”. Mas, para minha surpresa, o telefonema aconteceu e, ao invés da ameaça de processo, recebi um convite: “meu escritor querido, vem aqui em casa. Hoje, eu sou a mulher mais famosa desta cidade. Graças a mim, o jornal foi recorde de venda. Vou fazer uma festa. Vem aqui, vem logo”.

Foi aí, queridos, que, antes dos efeitos bacantes da festa, que a fã me pediu: “agora quero que você conte a crônica ‘Concentra, mas não entra’. E assim narrou a Mazé:

“Foi no Carnaval do ano passado:

Eu iria desfilar no Carnaval de Parintins, num bloco chamado ‘Lagarto Salgado’. Fantasiei-me (assim mesmo, certinho. Ela é professora de Língua Portuguesa) cedo, mas éramos o último grupo a entrar na avenida do samba. Então, comecei a me concentrar.

Entre doze amigas com a mesma fantasia, fiz questão de me maquiar primeiro. Eu queria ser a primeira a entrar na avenida, queria sair na frente, queria ser a primeira a quebrar a curiosidade do povo, porque a gente era da linha de frente, mas ninguém sabia como era nossa roupa”.

Interrompi a Mazé e perguntei-lhe como era a fantasia. Ela correu ao computador e mostrou-me as fotos. Curioso, indaguei-lhe: “mas só tem onze pessoas fantasiadas de Tio Sam? Cadê você?” E ela continuou:

“Então, passageiro-repórter, depois que acabei de me maquiar, não sei mais o que aconteceu. Sei que capotei e que meu irmão me levou para casa. E, quando acordei, no outro dia, olhei para mim. Eu ainda estava toda fantasiada de ‘Tio Sam’, e vi minha filha (Mel é o nome da menina) me olhando desse jeito (ela colocou as mãos na cintura). Surpresa com a cena, rolei na cama para perto da Mel, estendi minha mão para ela e disse (ela fez uma voz manhosa):

– Bate aqui, minha filha: arrasamos!

Mas, menino, a Mel olhou para mim, balançou a cabeça e falou:

– Não, mamãe, a senhora não arrasou, não.

E eu:

– Como eu não arrasei?

E ela:

– A senhora dormiu antes do desfile. A senhora concentrou, mas não entrou.

– Ah, minha filha… Mas você saiu?

– Saí!

Aí, estendi, de novo, a mão para ela e disse:

– Então, filha, arrasamos!”

*Filósofo e escritor.

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