Essa vilã chamada cultura

Por Célio Cruz*

 

Inicialmente, cabe esclarecer que pra falar de cultura o azarado (porém, destemido) autor tem de bolar um jeito de chamar a atenção do possível leitor, porque a cultura no Brasil se tornou um troço chato sobre o qual ninguém topa sequer ouvir minimamente; falar e discutir, então, nem pensar!

Acho mesmo, às vezes, que é um bloqueio geral quase intransponível. Mas, vamos lá, vou devagar, respeitosamente, amigavelmente, e contar com a sorte de encontrar olhos e corações atentos ou distraídos.

Geralmente, quando se fala em cultura se pensa em arte, ainda mais quando a conversa parte de um artista. Não vamos tratar sobre isso, essa coisa chata que é a arte. Prometo. Na verdade, ainda não conseguimos resolver questões básicas de cultura e a compreensão artística é um elemento distante que realmente se mostra, quando não há o clima propício, uma chatice mesmo. A necessidade da arte, então, fica no âmbito da quimera. Daquele tipo mais distante.

A cultura está na base de tudo: de todo o conhecimento em todas as áreas, de toda a caminhada da humanidade até aqui, nas mais diversas partes do planeta, com toda a sua carga histórica de erros e acertos, com toda a conectividade de umas culturas com outras, por assim dizer, e essa relação nunca foi amigável, desde quando o cão era menino.

Acho que no Brasil, estamos conseguindo a façanha de nos perder pelo caminho e recomeçar sempre, com todos os perigos dos recomeços, sobretudo quando se perde a referência histórica – é entrar no labirinto pra encarar o Minotauro sem o fio de Ariadne. O ataque do monstro da desmemória é mortal no âmbito civilizatório; além disso, há a perspectiva de caminhar para trás e à beira do precipício histórico. É nessa barca que estamos entrando.

Nossa tendência escravocrata e patrimonialista, por exemplo, sem a referência histórica humana, retorna com mais força, pois eventualmente o desmemoriado cede à alienação e se tiver grana, então, é uma séria ameaça.

O ódio de pobre e do diferente por qualquer viés se torna potencialmente mais forte e contagiante: sem o lastro da memória, da cultura e da história, até os pobres e os diferentes adotam, por alienação e osmose, comportamentos agressivos com os iguais.

 

“Sirva a cultura para o bem e a paz, não para alimentar o ódio, do qual o mundo anda farto, até o frágil limite do insuportável”

 

Só à guisa de exemplo ligeiro: encontrei um negro com a camisa do Bolsonaro numa oficina; um servidor público que quer porque quer o tal do estado mínimo e privatização geral; pobres, operários e aposentados que adoram o Fernando Henrique e acham que foi ele que inventou a modernidade e também estão torcendo pelo sucesso das reformas trabalhista e previdenciária; colegas advogados (muitos, até corruptos) que defendem ardorosamente a Lava Jato e amam o Sérgio Moro, com todos os seus tiques e o português rasteiro, e por aí vai.

Fiz essa lista imensa e esse mergulho aparentemente fora de contexto para fundamentar a tese de que pouca gente está interessada em progresso social e qualidade de vida por falta de lastro cultural.

Entendo através da nossa raiva histórica, patrimonialista e escravocrata de pobres, negros, mulheres, idosos, homossexuais etc. o fato consolidado de não termos transporte público de qualidade porque os brasileiros, e em pior grau os amazonenses (ainda não sei por que, mas tenho algumas hipóteses), querem ter carros, muitos, novos, caros.

Não temos calçadas nem passeios públicos, nem segurança nas ruas, nem faixas e passarelas em quantidade e qualidade adequadas, pelo mesmo motivo: as cidades são feitas para quem tem carros.

Lembrei do filme “Transformers” – é por aí. Os carros agridem as pessoas, zombam delas, matam-nas, se for preciso e possível. Mas, as ruas se vingam dos carros…

Por conta do nosso desligamento cultural, na verdade, os brasileiros, muitos, uma quantidade cada vez maior, não fazem questão de seus rios, lagos e igarapés; os brasileiros defecam em suas águas, jogam toda a espécie de lixo nelas; o rio não tem valor algum na maior parte das cidades.

Isso porque muita gente não quer saber das cidades, porque não quer morar nelas e transformá-las em lugares legais – a elite brasileira e até gente que não é da elite, mas se sente como tal, quer morar nos Estados Unidos ou na Europa. Lá sim, as ruas são limpas, os esgotos funcionam e as pessoas são bacanas porque falam inglês, francês e coisa e tal.

Por aqui, a desigualdade é a regra, desrespeito pelo trabalho manual – não podem ter direito às benesses da civilização, salvo a veículos de alienação e de dominação: celulares, TV, tabletes, plataforma streaming, e por aí vai; isso serve pra manter o exército unido e seguindo a ordem do dia, sem muitas surpresas.

Mas, a regra é que se a pessoa tem um trabalho manual, operário, lixeiro, gente da construção civil, da agricultura, do trabalho doméstico etc., forma o exército da subgente; e tem tendência à proliferação, engolindo classes superiores socialmente, pelo menos, porque o critério é renda.

Traficante, desde que discreto, é aceito na elite; mas, professor, não, nem funcionário público, a não ser o corrupto e o bem comportado.

A desigualdade é, na falta de termo melhor, chapada, pela alienação cultural e dela se torna parceira inseparável. De um modo geral, a classe média (de composição bem diversificada), quer distância do pessoal de baixo e faz qualquer negócio pra manter as coisas assim.

O déficit civilizatório (atenuação que vi sendo utilizada pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF, em situação diversa) é alimentado pela desigualdade social embrutecida pela alienação cultural, pela desmemória e pela perda degenerativa da humanidade, o que é bem pior.

Quando se perde o fio civilizatório – tenho um amigo que usa o termo pino de centro –, é terrível! Significa o desligamento da sociedade com sua história, sua humanidade, seu lastro espiritual ancestral que sedimenta o afastamento da civilização no plano local e planetário; daí em diante, o retrocesso é inevitável.

 

“Na verdade, ainda não conseguimos resolver questões básicas de cultura e a compreensão artística é um elemento distante”

 

A ignorância, além de confortável, é tentadora, sem falar no seu forte apelo agregador, às vezes até com tendência à violência física e verbal contra qualquer um que se atreva a acender uma mínima luz, ou mesmo que cometa o absurdo de avisar que lá fora, no vasto mundo há luz, cores, pedra, árvore, frio, calor, gente, bicho. Se suscitar uma dúvida, então, o risco de morte é iminente.

Nos momentos de retrocesso de qualidade vida e de retrocesso social, político e civilizatório, como o que o Brasil experimenta atualmente, é necessário humanidade, e a cultura, além de outras características marcantes, é o repositório de humanidade, localizado na alma.

O exercício cultural nesse momento é primordial, e que venha com ética e generosidade, não com a boçalidade frequente de quem se arvora a ser íntimo do metier, do âmbito dos espíritos elevados, sem ser de mesmo e de fato.

Que sirva o conhecimento para o exercício da dignidade, da bondade e da compaixão e não da humilhação, sobretudo de quem já vive passando por isso há séculos, historicamente.

Sirva a cultura para o bem e a paz, não para alimentar o ódio, do qual o mundo anda farto, até o frágil limite do insuportável.

Viram? Nem disse nada sobre arte.

 

Foto: BNC Amazonas

 

*O autor é compositor, pedagogo e advogado. 9.abr.2019