Os gritos da história

PERSONAGENS DAS LUTAS E DISPUTAS NA AMAZÔNIA SÃO REVISITADOS NO LIVRO “TRAJETÓRIAS POLÍTICAS NA AMAZÔNIA REPUBLICANA”, QUE SERÁ LANÇADO NESTA TERÇA-FEIRA, 28, ÀS 19H, NO PALACETE PROVINCIAL

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*Ivânia Vieira

Diante da expressão virulenta de uma das mais profundas crises políticas no Brasil, na designação formulada por Isaac Maciel (editor da obra), um livro ganha vida. Ironicamente um livro, entre as armas, a mais perigosa.

Escrito em 405 páginas, contém análises aprofundadas de 14 personagens da história política da Amazônia, e, nele, ganha expressão o roteiro de acontecimentos e de protagonistas que, para além da dualidade bem / mal, bom / ruim, constitui pedaço vasto das percepções sobre o desenvolvimento da Amazônia e os múltiplos enfoques dados por homens e mulheres, essência da obra, em seus experimentos públicos na região.

Em Trajetórias políticas na Amazônia Republicana (Valer Editora, 2019), estudiosos atentos aos entrelaçamentos da história como Amaury Oliveira Pio Jr., Auxiliomar Silva Ugarte, Cátia Franciele Sanfelice de Paula, César Augusto Bubolz Queirós, Edilza Oliveira Fontes, Gerson Rodrigues de Albuquerque, Giovanny Amaral, Iraildes Caldas Torres, Jaci Guilherme Vieira, Maria José dos Santos, Marina Hainsenreder Ertzogue, Otoni Mesquisa, Pere Petit e Sidney Lobato, assumiram o desafio de relatar atitudes de gente que fez história a partir de pesquisas acadêmicas.

São inúmeros fios desfiados em páginas deste livro e sob diferentes perspectivas. Ao final, a leitura de Trajetórias políticas na Amazônia Republicana é um presente aos amantes do conhecimento e, neste caso, daqueles que desejam conhecer outros aspectos da história da Amazônia cujo déficit de narrativas impressas e circulantes se mantém alto. É muito a ser informado. São tantos personagens que devem ser apresentados, relidos. Eis alguns deles:

Eduardo Ribeiro (1862-1900). Para o professor-doutor, escritor, artista e jornalista, Otoni Mesquita, o governador do Amazonas, Eduardo Ribeiro, foi o artífice da cidade. “Não como o inventor da forma da cidade, mas como um artista que efetivamente definiu sua configuração e lhe atribuiu personalidade”. A construção textual de Mesquita atualiza e problematiza a figura política Eduardo Ribeiro;

Álvaro Botelho Maia. “Uma das figuras mais complexas de se identificar em poucos adjetivos”, afirmam os historiadores Amaury Pio Junior e Eduardo Gomes da Silva Filho. (…) Grande orador, ele discursou na época para o presidente Washington Luís, a partir de uma carta aberta denominada Em nome dos amazônidas, quando defendeu a ideia de que a região era um paraíso verde. Nesse gesto procurava desconstruir a visão preconceituosa sobre a Amazônia. Maia, na visão de Junior e Silva, é personagem de muitos estudos que aguardam ser realizados;

Plínio Ramos Coelho. O poeta confiscado pela política.  Um dos personagens que muito caminhou em área movediça, ganhou quando a derrota era apontada como certa e perdeu quando poderia reverter situações, talvez, embora cercado por paredes reacionárias.

Vale a pena conhecer o relato da nota oficial, publicada no Jornal do Commercio, pela Associação Comercial do Amazonas (ACA), na qual convida seus associados a “uma concentração cívica no Largo São Sebastião com a finalidade de manifestar o regozijo da sociedade amazonense pela superação do clima de insegurança contagiava a nação”. Tratava-se do ‘Golpe de 1964’.

O professor César Augusto Bubolz Queirós conta, com detalhes, a articulações dos vários setores naquela época: “O prefeito Josué Claudio de Souza declarou que ‘Plínio Coelho foi um clique contra a desordem comunista (…)’.

O próprio Plínio Coelho, após encontro com o ministro da Guerra, Arthur da Costa e Silva, se posiciona favoravelmente ao golpe. O que aconteceu? Plínio Coelho seria um mero bajulador, como o classificou Fábio Lucena?

Gilberto Mestrinho: A partir da imersão no cenário político-econômico mundial/nacional/regional, a pesquisadora Iraildes Caldas Torres traça a trajetória de Gilberto Mestrinho. “Não se pode deixar de perceber que Mestrinho desempenhou um importante papel social na região” e que (…) foi a “última grande liderança autêntica dos últimos setenta anos do Amazonas”.

Detentora de detalhes singulares sobre a vida de Mestrinho, Iraildes Caldas Torres escreveu a biografia do governador e, neste livro ora lançado, apresenta uma série de dados em torno do pensamento e dos arranjos confeccionados pelo ex-governador do Amazonas;

Arthur Cézar Ferreira Reis: De início, o pesquisador e professor universitário, Auxiliomar Silva Ugarte, adverte: “A dimensão intelectual desse historiador, pela qual o seu nome é lembrado até hoje, não esteve desvinculada da dimensão política à qual se ligou fortemente”.

O banzeiro é parte da vida longa de Ferreira Reis e movimenta paixões e ódio no trato mais popular desse personagem. Ugarte faz uma rica síntese desse movimento que traduz o próprio personagem: “Arthur Cézar Ferreira Reis bem poderia ser chamado, também, de ‘Lobo d’Almada do Estado do Amazonas do Século XX (…). O estadista colonial serviu de modelo para a conduta política do historiador que não somente estudou, mas amou profundamente a Amazônia brasileira. (…) não esquecendo a postura autoritária de Arthur Reis, fica nosso compromisso, menos em julgá-lo, o que já foi feito por seus contemporâneos, desafetos ou não, mas em compreendê-lo como homem de ideias e homem de ação”.

Fábio Lucena: Vale a pena pegar este livro e conhecer o que escreve sobre o político Fábio Lucena, a professora Giovanny Amaral. Qual é a faceta do Fábio bancário, do Fábio jornalista, do Fábio articulista de jornal e do Fábio parlamentar? “Lucena foi uma figura polêmica, destemida, controversa, corajosa (…). Um ‘Dom Quixote’ amazônida, lutando contra os moinhos de vento, contra a repressão política, as perseguições e a censura do período. Um paladino da democracia e dos menos favorecidos. Jamais fugiu a um debate. No fim da vida, sentia-se abandonado pelos amigos, ressentido consigo próprio pelas alianças políticas que fez e traído por seu partido.”

O que levou Fábio Lucena a cometer suicídio?

Aurélio do Carmo: Ao 38 anos assumia o governo do Estado do Pará em 1960, teve o mandato cassado em 1964, passou a trabalhar como advogado, no Rio de Janeiro.

Sobre esse fato, Aurélio do Carmo  declarou que “os militares nunca me perdoaram porque, quando eles prenderam meus secretários, mandei que a bandeira do Pará fosse hasteada a meio-pau, na frente do Palácio do Governo, em sinal de luto”, assinala o professor Pere Petit, que encerra o artigo sobre a vida do ex-governador do Pará, ainda vivo, recolhendo trechos do depoimento dado por Carmo à Comissão Nacional da Verdade, em 29 de setembro de 2012: “(…) Me recusei a depor às autoridades militares que foram ao Palácio do Governo, decretei luto oficial do Estado (…). Foram os piores anos da minha vida. Cheio de sonhos (…)”;

Dois Beneditos: A professora da Universidade Federal do Pará, historiadora Edilza Joana Oliveira Fontes, constrói uma narrativa instigante ao apresentar ao leitor a história de dois Beneditos, o Monteiro, e o Pereira Serra.

Ambos caçados como animais na floresta paraense pelos militares golpistas. A família de Benedito Serra, preso, torturado e morto, até hoje não teve o direito de saber sobre os autores do crime. As histórias de vida desses dois Beneditos são elevadas à alta temperatura nesse recorte feito por Fontes onde perguntas aguardam respostas justas e claras;

José Maritano: Sidney Lobato, professor de História na Universidade Federal do Pará, apresenta a história do bispo Dom José Maritano ou, talvez, formule por meio do religioso, uma face da história da Igreja Católica da Amazônia e do cotidiano de lutas e disputas nessa parte brasileira. Afirma o professor, “responder à questão: Quem foi José Maritano? Impõe contar uma história. As armadilhas são complexas”;

Jorge Teixeira: Fazer recortes na vida do coronel Jorge Teixeira exige exercícios difíceis para formular os cenários em que o político e administrador atuava, as atitudes e a formação de alianças diversas.

A professora Cátia Francile Sanfelice de Paula, da Universidade de Rondônia, em Rolim de Moura, se propôs a fazê-los. Relata os percursos de Teixeira, prefeito de Manaus, nomeado pelo presidente da República, Ernesto Geisel, em 1974; governador nomeado pelo presidente João Figueiredo, em 1979, do Território de Rondônia.

Tornou-se uma espécie de garoto-propaganda, em parceria com o jornal O Globo, dos projetos de colonização em Rondônia. Travou brigas árduas, algumas delas com a Igreja Católica;

Dom Aldo Mogiano: O italiano Aldo Mogiano bem poderia ser roraimense de sangue, carne e osso. Já o era de coração e alma.

Viveu de 1975 a 1996 determinadamente em defesa dos povos indígenas de Roraima e da Amazônia.

A trajetória de um dos mais emblemáticos sacerdotes da Amazônia é contada pelos professores Maria José dos Santos, da Universidade Estadual de Roraima, e Jaci Guilherme Vieira, da Universidade Federal de Roraima.

No capítulo que integra o livro Trajetórias políticas na Amazônia Republicana, os autores afirmam: “a luta da Pastoral Indígena, carro chefe do arcebispado de Dom Aldo, trouxe aos povos indígenas a esperança de viver numa terra sem males, com respeito e com dignidade”;

Valdiza Alencar: Uma das duas mulheres incluídas no elenco das narrativas integrantes do livro ora lançado pela Valer, Valdiza Alencar tem parte da sua história de vida contada, em ritmo forte, pelo professor da Universidade Federal do Acre, Gerson Rodrigues de Albuquerque.

Essa mulher liderou o enfrentamento ao projeto de “integração e modernização amazônica, realizado pela ditadura militar. A história de Valdiza Alencar é feita de grandes capítulos e muitas interseções, neste, Albuquerque abre espaço precioso para retirar a invisibilidade com que ela foi tratada.

Nele, por meio de Valdiza, outras mulheres de luta emergem;

Raimunda Gomes da Silva: A outra mulher, nesse grupo, é a quebradeira de coco Raimunda Gomes da Silva. A professora da Universidade Federal do Tocantins, Marina Haizenreder Ertzogue, tece os fios e apresenta a teia da vida dessa mulher determinada, forte e delicada que dizia não querer morrer de “matada, quero morrer na cama”.

Dona Raimunda recebeu o título de ‘Doutora Honoris Causas”, em junho de 2009 da UFT, compartilhando a mesma homenagem com o pensador Edgar Morin. Essa foi uma das tantas homenagens à quebradeira de coco que reuniu outras tantas mulheres, comunidades e, até 2018, lutou pela igualdade.

 

*A autora é jornalista e professora da FIC/Ufam.