O cientista e o presidente
Publicado em: 25/09/2008 às 00:00 | Atualizado em: 25/09/2008 às 00:00
Wilson Nogueira*
O presidente Lula surpreendeu os convidados da cerimônia de abertura da Feira Internacional da Amazônia, no dia 10 de setembro, no Studio 5, em Manaus, ao cumprimentar, quando discursava, o ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) Ennio Candotti, que se encontrava na platéia. Disse que havia sido informado sobre a opção de Candotti pela Amazônia como lugar para morar e trabalhar. A decisão do cientista, segundo o presidente, não é um caso isolado: outros cientistas estão se transferindo do Sul e do Sudeste para regiões antes desprezadas em razão da ausência de investimentos em pesquisa.
Lula utilizou-se da ilustre presença de Candotti para dizer que o Brasil desenvolvido tecnológica e economicamente espraia-se, agora, para o Centro-Oeste, para o Nordeste e para o Norte. Os investimentos públicos e privados descentralizados atrairiam, na perspectiva do presidente, cientistas e outros profissionais de alta qualificação para regiões onde eles hoje são raridades. A função deles, além da ampliação dos projetos de pesquisa, seria a formação de novas gerações de pensadores e técnicos comprometidos com a realidade de cada uma das regiões do País.
O presidente seduz a todos com essa explanação, principalmente aqueles que vivem na Amazônia, onde as vagas nos cursos de pós-graduação são disputadas a tapas e beijos. Afinal, a presença do cientista, aureolado pela ciência como sinônimo de modernidade, denota a possibilidade de produção de conhecimento de uso amplamente legitimado. Trata-se de um fato animador. Ninguém em bom juízo menosprezaria o conhecimento cientifico como fator de aperfeiçoamento da humanidade.
Mas há nesse desejo de promovê-lo como ente indispensável uma questão crucial: qual e/ou quais conhecimentos interessariam às populações amazônicas? Seriam os mesmos dos formuladores das políticas públicas que agora dominam a política e a burocracia do País? Pois bem: a propósito, nos dias 16, 17, 18 e 19 deste mês, sociólogos da região Norte se reuniram em Manaus, em encontro promovido pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBC), realizado na Universidade Federal do Amazonas, para discutir o tema Amazônia em busca de novas abordagens.
Os participantes, entre os quais pesquisadores, professores e profissionais de outras disciplinas, esmeraram-se para legitimar o tema: avaliaram que as Ciências Sociais precisam ser mais ousadas e mais criativas para dar conta dos velhos e emergentes fenômenos e conflitos sociais amazônicos. Os mais visados são os relacionados à tentativa de flexibilização dos territórios e fronteiras tradicionais, que atingem, principalmente, as terras indígenas e os quilombolas, e os que derivam dos projetos de grande impacto ambiental e social, como os da produção de energia por grandes hidrelétricas e os de extração de minérios. As políticas do governo Lula para a Amazônia estariam muito próximas do desenvolvimentismo das décadas de 1960 e 1970, cujos resultados foram os mais nefastos possíveis.
Não faltam reclamações contra a falta de recursos para pesquisa para os Estados do Norte.
Entre os sociólogos, Candotti seria aplaudido certamente.
Quanto a Lula, sei não!
*Sociólogo, jornalista e escritor
