O filho da machuda

Publicado em: 23/11/2009 às 00:00 | Atualizado em: 23/11/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

Ele estava na praça, em frente à igreja, debaixo de um pé de benjaminzeiro. Com um livro na mão direita, erguido acima de sua cabeça, socava o ar e apontava o olhar para o céu, como quem a Deus suplica. Às vezes, passava o livro para a outra mão e colocava o dedo em riste na direção dos carros que passavam por ele.

Houve um momento em que ele virou balanço: colocava um pé na frente e outro atrás e ficava nesse vaivém até girar no próprio eixo para retornar novamente o balanço. Quando, enfim resolveu parar, colocou os joelhos na calçada e abraçou o livro ternamente em seu peito.

De longe, logo que eu desci do ônibus, achei que estivesse fazendo uma pregação, mas, ao me aproximar dele, percebi que de sua boca não saía nenhuma palavra. Seus lábios produziam apenas gestos. Parei para assisti-lo e não sei por quanto tempo ele permaneceu ali em seu ritual.

Não percebi o tempo passar porque minha memória não me permitiu. Ela insistia em lembrar das duas outras vezes que o tinha visto. Isso não faz muito tempo, não. Menos de cinco anos. A primeira delas foi no estacionamento do Vivaldão. Lá, ele era flanelinha, o mais vistoso de todos os guardadores de carros.

Naquele dia, ele calçava um coturno, vestia uma calça rajada do Exército (era uma calça bem maior do que o corpo dele), bombachas armadas nas pernas e por baixo do rajado usava uma camiseta branca. Parecia um militar em trajes de serviço administrativo. Aquela marmota me fez parar para conversar com ele.

Ele ainda era muito moço nesta época. Tão moço que as bolhas infeccionadas de seu rosto ainda começavam a sair.

Na segunda vez que o encontrei, ele estava a bordo do 125, o ônibus da Ufam (agora já sei que ele mora aqui perto do jornal). Nesse dia, embarquei perto do Hospital Getúlio Vargas, no Boulevard. Ele já estava na viagem, mas não o notei. Estava a dois assentos de mim. Entre mim e ele havia dois rapazes, que gastavam o tempo a se gabar de suas aventuras sexuais.

Ah, antes de começar a falar das namoradas, eles explicavam um para o outro a razão de estarem ali de ônibus. “Meu pai quer me dar um carro… eu é que não quero”. O outro concorda e acrescenta: “Meu pai também quis me dar um, mas eu disse para ele: ‘pai, eu quero ter as coisas com o meu dinheiro’”. E assim foram.

Depois de mostrarem suas posses, começaram a falar das aventuras amorosas:
– Tu sabes a fulana (não conseguir compreender o nome que ele pronunciou)?
O outro respondeu:
– Sei!
– Eu saí com ela.
– E aí, rolou?
– Rolou, não.
Surpreso, o amigo perguntou:
– Por que, cara? Ela é boa paca!
Em seguida, ele explica:
– Eu levei ela, mas na hora ela impôs uma condição…
– Qual?
– Disse que só ficaria comigo se a namorada dela fosse também.
Foi aí que vi o flanelinha. Ele se levantou da cadeira à frente e disse para os dois, timidamente:
– Ei, cara, isso não tem problema, não. Minha mãe é machuda.
E o silêncio se estabeleceu até a universidade.

*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

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