O triunfo dos nerds!

Publicado em: 21/09/2008 às 00:00 | Atualizado em: 21/09/2008 às 00:00

Michelle Portela*

Nas escolas católicas, padres acumulam a função de professor de religião e supervisores pedagógicos. Quando fazia o segundo grau, atual Ensino Médio, no Colégio Dom Bosco, fui surpreendida lendo “Morte: o grande momento da vida” e ouvi um sonoro: “quem é este herege?”, para, em seguida, ser encaminhada para a psicóloga.

Fiquei chocada! Disse para a senhora que me avaliou que não entendia como não podia ler mais uma grande obra de Neil Gaiman, escritor e quadrinista britânico que usava sua literatura de forte apelo poético para tratar de temas clássicos, fazendo uso de mídias tradicionalmente discriminadas e levando-as a alcançar status de best-seler em países do “primeiro mundo”. Deu certo, a ponto do fato não constar em meus registros.

De certa forma, conhecer Neil Gaiman foi determinante em minha vida. A admiração faz com que obra e autor façam parte do meu cotidiano, seja em referências literárias ou em experiências de vida. Acesso o blog journal.neilgaiman.com diariamente, tenho a coleção completa da graphic novel Sandman, obra que o elevou de escritor de história em quadrinhos à posição de autor, e dos livros publicados no Brasil, e minha fantasia favorita é Stardust, que narra a queda e a luta pela sobrevivência de uma estrela para falar de humanidade. Ele me apresentou um novo mundo, no meu próprio tempo. Falando sobre ele, me aproximo de qualquer pessoa no planeta. Para mim, ele abriu portas.

Mais sobre ele? Ao receber homenagem no Scream Movie Awards de 2007, subiu ao palco, de calça e jaqueta de couro e um perceptível óculos de grau, para dizer que aquele “era o triunfo dos nerds”. Em Paraty, na Flip, deixou a sala vip e foi passear com a filha pela cidade. Tirou, inclusive, foto abraçado ao “curupira”.

Concretizando as expectativas manifestadas na internet, tanto por fãs quanto pelo próprio Gaiman em seu blog, ele ficou por seis horas consecutivas autografando livros e quadrinhos de leitores emocionados, que superaram mais de um dia de espera na fila, como expuseram membros de comunidades virtuais que freqüento. “Se antes o amava, agora o amo mais ainda” se tornou um novo tópico após o episódio. É o maior recordista de autógrafos da Flip.

A atitude chamou a atenção do escritor Tenório Teles, que esteve na Flip e hoje usou o exemplo “daquele autor” para falar do comprometimento que a categoria deve ter para com seus fãs, em reunião preparatória para o Festival Literário da Floresta (FliFloresta). “Esse rapaz deu um grande exemplo de humildade”, reconheceu Tenório.

A citação me fez retomar uma análise crescente. Não é nova a constatação, mas não custa lembrar. Há escritores muito simpáticos que escrevem mal. E há escritores antipáticos que escrevem bem. Agora, nada como encontrar escritores simpáticos e competentes no que fazem. Podiam ser antipáticos se quisessem. Porém, são simpatias pessoais que garantem a priori simpatias literárias. Vide Tenório, que sequer sabia o nome do cara.

Nesse caso, transfiro o julgamento do mérito literário aos leitores, mas garanto que é sempre mais agradável conversar com um autor simpático, aquele que talvez nem se atribui importância indevida, do que com coroas que se tem em alta conta e enfiaram a modéstia no canto da bolsa de marca.

Cees Nooteboom, um outro grande autor, nem sei se simpático ou antipático, traduz meus sentimentos assim em Paraíso Perdido:
“Ele costumava não suportar a maioria dos escritores como pessoas, sobretudo se admirava o trabalho deles. Mais valia jamais encontrá-los. Melhor seria se fossem de papel e estivessem encadernados.”

* Jornalista e mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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