O vento Galeano permanece
Publicado em: 21/04/2015 às 00:00 | Atualizado em: 21/04/2015 às 00:00
Ivânia Vieira
Andei mexendo em livro velho com páginas quase desprendidas. Os textos marcados com lapiseira azul estão desbotados. As ideias não. Ficaram guardadas dentro do livro e o livro ora dentro de caixas ora em instantes improvisadas. Assim encontrei o meu exemplar de “As Veias Abertas da América Latina“, a 12ª edição da Paz e Terra, de 1981 (o livro foi escrito no final de 1970). Busquei o clássico de Eduardo Galeano encharcada por vários sentimentos: saudade das conversas e discussões da época da faculdade de jornalismo, na Ufam; curiosidade em revisitar as ideias de Galeano algumas décadas depois; triste porque o câncer se fez desculpa da morte para levar, no dia 13, esse escritor do mundo, nascido em Montevidéu.
De “As Veias Abertas…” que continuam abertas na América Latina, retiro duas citações de Eduardo Galeano: ”Já se sabe quem são os condenados que pagam as crises de reajuste do sistema“, e “as cidades vão inchando até explodirem“. Escritas há quase 30 anos, elas traduzem uma face da atualidade não de um continente e sim do mundo todo.
Instigada por Wellington Pereira, jornalista, escritor, poeta e professor e pesquisador na Universidade Federal da Paraíba, atravesso as veias para chegar ao “Livro dos Abraços”, escrito por Galeano em 1991. São abraços que afagam nossas angústias e espremem nossas alegrias. Eis alguns dos textos espalhados nas 139 páginas da publicação:
“Os funcionários não funcionam.
Os políticos falam mas não dizem.
Os votantes votam mas não escolhem.
Os meios de informação desinformam.
Os centros de ensino ensinam a ignorar.
Os juízes condenam as vítimas.
Os militares estão em guerra contra seus compatriotas.
Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas” (em “O Sistema/1″) .
“Os índios são bobos, vagabundos, bêbados. Mas o sistema que os despreza, despreza o que ignora, porque ignora o que teme. Por trás da máscara do desprezo, aparece o pânico: estas vozes antigas, teimosamente vivas, o que dizem? O que dizem quando falam? O que dizem quando calam? (em “Os índios/2″).
“Pela tela desfilam os eleitos e seus símbolos de poder. O sistema, que edifica a pirâmide social escolhendo pelo avesso, recompensa pouca gente. Eis aqui os premiados: são os usurários de boas unhas e os mercadores de dentes bons, os políticos de nariz crescente e os doutores de costas de borracha (em “A Televisão”).
Eduardo Galeano disse a Galeno de Freitas, tradutor de “As Veias Abertas...” que escrever um livro é como colocar uma mensagem dentro de uma garrafa e atirá-la ao mar. A possibilidade de que alguém a recolha e leia é sempre remota. “Qual é o mistério dessa mensagem de as veias abertas?”, pergunta Freitas sabedor das tantas águas por onde esse livro viajou. E ele mesmo responde – “a força deste livro reside na verdade, contada com veemência e provada com documentos irrefutáveis”.
Em “O Ar e o Vento” (no “Livro dos Abraços”), Galeano escreveu: “quando eu já não estiver, o vento estará, continuará estando“. Que os ventos lançados por Eduardo Galeano continuem atravessando as águas dos mundos pessoal e grupal nos animando a encher outras garrafas com os escritos que alcancem multidões amantes da liberdade e da autonomia.
