Pacto com o diabo
Publicado em: 13/12/2008 às 00:00 | Atualizado em: 13/12/2008 às 00:00
As abelhas pousam na fatia de queijo coalho. Ele as agride com um trapo gorduroso. Apressado, o cliente pára e lhe pede um pouco de fogo para acender o cigarro. Ele nega; depois, resmunga. Tudo incomoda seu Antônio. Sinto até falta das frases prontas que costuma soltar nas horas certas.
Seu Antônio é o bombonzeiro da parada onde costumo tomar cafezinho à espera do ônibus. Imaginei que ele tivesse descoberto que sua namorada anda saracoteando pela noite. Vi a moça numa madrugada de sexta-feira, na Ladeira do Forró, aqui ao lado do jornal. Dançava de tudo e de todo jeito: ia e voltava para frente e para trás segura pelas mãos do parceiro; rodopiava feito pião; e depois de mais uma sessão de ida e vinda saltava-se na cintura do rapaz, abraçando-o com as pernas para em seguida girarem no mesmo eixo. Eu deixei a festa, e ela ficou molhada de suor.
Mas não era isso que perturbava seu Antônio. Aliás, aprendi com meu amigo Camilo, criador de gado que hoje beira os 80 anos, que velho não sente ciúme. “Prefiro dividir um docinho a ter que comer sozinho uma lata de estrume”. O bombonzeiro já passou dos 70 e a namorada dele está perto dos 20.
Senti-me tão incomodado com a mudança de comportamento do meu amigo que o instiguei:
– O que aconteceu, seu Antônio?
– Nada, por quê?, retrucou.
– O senhor está brigando até com as abelhas.
Ele abriu um sorriso, depois baixou a cabeça e disse:
– O bispo pediu para a gente não comprar mais nada da Xuxa. Nem assistir ao programa dela.
– Mas por que, seu Antônio?
– Ela vendeu a alma para o diabo, por isso é que ficou rica. Tu já imaginou?
E eu, pensei comigo: sim, já havia imaginado. Essas histórias escutam-se em todos os lugares. No livro “Os pactos”, li a história da família Picasso, em uma cidade chamada Santa Rosa. Eram lavradores. Da noite para o dia, tornaram-se donos de tudo. Mas havia um problema: a cada salto que davam na fortuna, um filho morria. Foram-se três. Todos de maneira trágica. O último, por exemplo, debaixo de um contêiner, que despencou de um guindaste no cais do porto de Santa Rosa.
Outra história do livro contava a sorte de um pobre mecânico de aviação. Vivia se queixando da vida. Passava horas em sua oficina, falando sozinho. Ficou rico ao se encontrar com o cramunhão, durante um acidente aéreo. Dizem que quando o avião começou a apresentar problema, todo mundo se pegou com Deus. Só ele com o dito cujo. Depois da tragédia, comprou a empresa para a qual prestava serviço e tudo o que desejava possuir.
Seu Antônio tinha a história dele também:
– Na minha terra tinha um coronel muito rico. Perdeu tudo depois da Segunda Guerra. Ficou igual a gente. Mas, da noite para dia, começou a comprar navios, comércio… Dizem que vendeu a alma para o diabo. Assim como subiu, caiu. Morreu só em um pau-de-arara. Adiantou?
Concordei com o meu amigo. E lhe disse:
– Seu Antônio, sei que a Xuxa vendeu outra coisa. Não a alma. O primeiro trabalho dela foi para uma revista de mulher pelada.
Ele, porém, insistiu:
– Não, o bispo disse que ela vendeu a alma por cem milhões de dólares!
– Cem milhões de dólares é muito dinheiro, respondo, em defesa da apresentadora.
Notei que eu não teria êxito em demovê-lo da idéia. Desisto, mas ele recomeça:
– Olha, vou te dizer uma coisa, morro vendendo bombons, mas não entrego minha alma por preço nenhum. Essa é a única coisa que não se vende.
Concordei com ele e tentei dar minha opinião sobre esse assunto, mas o 600 (T4-Centro) passava com alguns lugares vazios e corri para embarcar.
* Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
(Ilustração: Myrria)
