Palavras do cacique
Publicado em: 26/04/2009 às 00:00 | Atualizado em: 26/04/2009 às 00:00
Wilson Nogueira*
Zapeando, vi-me diante de um cacique xinguano ensinando que os fazendeiros que lhes roubavam as terras deveriam pensar nas gerações futuras (nos netos deles, por exemplo, antes de degradá-las pelo desmatamento). A câmera lhe pôs em ângulo que ressaltava um trecho sinuoso de rio contornado por mata virgem. A cena, exposta em segundos, legitima a fala do cacique.
E os fazendeiros, aprenderam a lição? Não. Claro que não! Pelo contrário, calaram e tentam calar os que lhes contrapõem no discurso e na prática, sejam eles índios, brancos, amarelos ou azuis. E poderia ser diferente? Não. Claro que não! Os fazendeiros também são banqueiros, especuladores, políticos, governantes, juízes e legisladores. ELES são da elite que manda e desmanda no País. O cacique, o grande cacique, prega para essa multidão (sociedade do consumo) que procura oportunidades de ganhar dinheiro para consumir, seja na Terra, na Lua ou em Marte.
Zapeando, clicando e navegando – fico nos hábitos mais comuns do cotidiano do usuário midiático – constata-se que a Amazônia, na qual o Xingu é um pontinho no mapa-mundi capitalista, perde suas florestas, terras e rios de forma avassaladora. Enquanto componho esse texto, milhares de árvores se vergam sob motosseras ou são arrancadas por tratores. Amanhã lerei os estragos nos jornais, na Internet e TV, e posso até ver, se assim eu preferir, o alargamento do deserto em tempo real, via satélite.
O cacique denuncia a insensatez do desflorestamento para a criação de gado, para a plantação de soja e de outras monoculturas, mas o deserto anda velozmente, o clima se desequilibra e as catástrofes tornam-se iminentes na Amazônia e muito longe dela. Falta de aviso não foi. Na Amazônia equatoriana, ouvi a sábia explicação de membros do povo Shuar de que os rios andam e voam. Logo, eles podem mudar de lugar; e se as árvores regulam as chuvas, como até a ciência atesta, nada mais correto do que mantê-las em pé. Rios e florestas se completam.
Não será o alerta de um cacique a deter a voracidade do lucro. Mas suas palavras e sua coragem se inscrevem na história dos povos que se orientam por uma ética duradoura e profunda, na qual há menos espaço para intolerância, arrogância, egoísmo, vaidade e injustiça. Trata-se uma ética praticada, vivida e reconhecida como importante não só para os seres humanos. Esse modo de ver e viver no mundo não interessa aos que caçam o lucro imediato legal ou ilegalmente.
Por isso, o deserto amazônico só vai parar e os rios andantes e voadores só sossegarão quando a floresta em pé gerar dinheiro, mas muito dinheiro mesmo! Dinheiro, para ELES. Ou então se o mundo vier a se refazer num novo processo histórico. Afinal, para que as utopias se mantenham vibrantes, é necessário que pensemos que um outro mundo sempre será possível. Penso que é a esse mundo ao qual o cacique xinguano se refere.
*Sociólogo, jornalista e escritor.
