Propaganda eleitoral: fardo ao eleitor

Publicado em: 26/08/2008 às 00:00 | Atualizado em: 26/08/2008 às 00:00

Valmir Lima*


“Eu, o Eduardo e o ministro do presidente Lula (mencionar o nome) vamos fazer muito mais por Manaus”. “O candidato que vai fazer por Manaus o que o presidente Lula está fazendo pelo Brasil”. Essas frases têm sido usadas por candidatos à Prefeitura de Manaus na propaganda eleitoral gratuita e nas entrevistas e debates na televisão. A estratégia de campanha, no entanto, beira o insulto ao eleitor. Ao tentar colar a imagem do candidato à do presidente da República só porque este tem altos índices de aprovação nas pesquisas de avaliação do governo federal, é supor que o eleitor não tem a mínima capacidade de escolher o prefeito a partir das propostas e do passado de quem se dispõe a concorrer.

E não há aqui uma avaliação a partir do ponto de vista da elite, que, para os analisas mais arrogantes, têm maior capacidade de discernimento porque freqüentou mais a escola e a universidade. Qualquer cidadão, independentemente da escolaridade, desconfia de um candidato que tenta esconder-se atrás da imagem de uma autoridade com o objetivo de obter a mesma popularidade a ela conferida. É como alguém incapaz que depende de outras para lhe carregar de um lado para outro.

Uma busca mais cuidadosa aos grandes feitos e defeitos do tal “ministro do presidente Lula” certamente frustrará o eleitor honesto, que dá seu voto na esperança de que o candidato promova as políticas públicas de que a cidade precisa. É o mesmo ministro que vendeu a idéia, quando prefeito, de que o Expresso seria um sistema de transporte eficiente para Manaus. Como ministro, muito pouco tem feito para melhorar o transporte nas rodovias e rios da região. Exemplos? BR-174 e BR-319.

Ao dizer que vai fazer o que o presidente está fazendo pelo Brasil, o outro candidato deixa, no eleitor mais esclarecido, uma série de interrogações. O que esse e outro um milhão de eleitores querem ver são as propostas concretas, as condições objetivas para que elas se realizem e não fiquem apenas no campo das promessas.

Nesse sentido, não temos visto na propaganda política nada que possa gerar discussão nas rodas de conversas dos eleitores de Manaus. Os seis candidatos têm apresentado uma verborragia no horário eleitoral que mais agride olhos e ouvidos do que informa sobre a real intenção daquele que pede voto.

Uma série de promessas de construção de escolas e creches, de melhorar o sistema viário (sem dizer como), de ampliação do atendimento de saúde… Nos programas de entrevistas, aliás, esses são os temas recorrentes: saúde, educação, transporte e infra-estrutura. Nenhum candidato discute as finanças do Município. Nenhum diz quanto o Município arrecada, como gasta esse dinheiro e como seria gasto numa eventual gestão. A promessa de construção de qualquer prédio, por menor que seja, precisa estar no orçamento, que depende, essencialmente, do dinheiro que o município arrecada.

Por que os candidatos não discutem essas questões na propaganda eleitoral gratuita e nas entrevistas e debates? Porque avaliam que o eleitor é incapaz de entender assunto tão complexo como as finanças de um município. Os marketeiros olham o eleitor a partir do mais “ferrado”, porque imagina que eles podem ser mais facilmente convencidos. Esquecem, por exemplo, que os sem-água representam um universo muito menor do que os que pagam um valor exorbitante para ter água na torneira.

O que sobra para o cidadão que quer votar num candidato sério? Nada, pois na propaganda, todos são iguais. Os que ainda assistem à propaganda eleitoral no rádio e na TV o fazem no afã de ver, pelo menos, uma pontinha de criatividade dos homens da comunicação. Mas está difícil. A propaganda eleitoral é um fardo ao eleitor.

*Jornalista, professor universitário e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia.

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