Por José Alcimar de Oliveira*

 

01. Numa nota ao prefácio à primeira edição da Crítica da razão pura Kant definia sua época (final do século XVIII) como a época da crítica a que tudo deveria se submeter, tanto a religião quanto a legislação. Ocorre, segundo nosso circunspecto filósofo, que a religião por conta de sua santidade, e a legislação, por força de sua majestade, imaginavam-se acima da crítica e em consequência terminavam por levantar sérias suspeitas contra si mesmas, impedidas, pois, de aspirar ao sincero respeito que a razão só pode devotar a quem admite passar pelo filtro de seu livre e público exame.

02. Quem primeiro é sacrificado quando prevalece a lógica fanática dos extremos e refratária à crítica é sempre o uso público e livre da razão. Quem cancela o debate impede o esclarecimento. Quem não compreende não explica. Quem pensa explicar sem compreender sacrifica o real e dificilmente vai além da percepção epidérmica de si e do mundo. É sempre necessário desconfiar de quem reivindica para si o poder de chegar ao Absoluto ou ao que mais relativo é por meio de revelações. Quando numa sociedade aumenta essa inusual via de acesso cognitivo – e hoje a religião é um terreno fértil para revelações de toda ordem – estamos diante de um indicador seguro de que o coeficiente de esclarecimento se encontra em perigo. O acesso imediato ao real é da ordem da razão divina. A razão histórica, única de que dispomos, opera sempre discursivamente e por meio de mediações. Nem mesmo ao que crê é facultado prescindir das mediações para pensar o que julga ser da ordem do absoluto.

03. A pressa é igualmente inimiga da teoria, da prática e do juízo. Razão pura, razão prática e razão estética. Ao tentar responder às três perguntas que em tese poderiam resumir as grandes questões da filosofia: o que posso conhecer, o que devo fazer e o que me é permitido esperar?, Kant, movido pelo que Hegel depois denominaria de paciência do conceito, escreveu as três críticas de seu monumental edifício filosófico: a Crítica da razão pura, a Crítica da razão prática e a Crítica do juízo. Em resumo, não seria difícil perceber o mal-estar de Kant em meio à produção e divulgação, sem o necessário anteparo crítico de filtro cognitivo, do que podemos classificar de lixo mediático,tão funcional para a manutenção das consciências sob o registro do cotidiano irrefletido.

04. Crítico e herdeiro de Kant, Hegel admitia que nada de grande no mundo é feito sem paixão. Mas a paixão em Hegel não pode ser pensada sem o concurso da razão. Se a paixão é parte do real e o real é racional, o racional é igualmente real e nele se inscreve a paixão. Kant e Hegel, cada um com seu arsenal teórico, combateram com tenacidade o reino das sombras e da sonolência da razão. Goya, do século do iluminismo kantiano, mas muito mais por meio da razão estética do que pura, assinalava que o sono da razão pode gerar monstros. Kant, Goya e Hegel encontrariam precário e inóspito abrigo no Brasil da segunda década do século XXI, em que as sombras da intolerância e do ódio avançam em extensão e intensidade e fazem regredir o espaço crítico.

05. A baixa política em curso atravessa e compromete a vida institucional e o exercício do poder, de cima a baixo, de nossa limitada democracia. Sobra poder e falta bom senso. O estado crítico da crítica fortalece o Estado de exceção, naturaliza as desigualdades e faz regredir ao mínimo as conquistas civilizatórias associadas ao que defendemos como Estado Democrático de Direito, formalmente constituinte da República Federativa do Brasil e definido no pórtico da Constituição de 1988, em seu Art. 1º.

06. Há quase dois milênios e meio da condenação de Sócrates na Atenas da democracia, acusado de corromper a juventude, de descrer nas divindades tradicionais e de difundir a crença em novos deuses, o Brasil do século XXI pouco avançou no uso público e socrático da razão. Expulsa da cidade, ontem em Atenas e hoje em Brasília, a filosofia segue sua trajetória de exílio. Mesmo as universidades já não representam abrigo seguro para a filosofia, porque tragadas pela razão produtivista e submetidas à dialética empobrecida pelo saber sem poder e pelo poder sem saber, o que a cirúrgica percepção de Maurício Tragtenberg denominava de delinquência acadêmica.

07. Não há direito à justiça sem direito ao pão e às letras. Não há cidadania sem esclarecimento. Aliás, repetindo Brecht, “a justiça é o pão do povo”. E a justiça, penso eu, implica relação de simbiose entre intestino e encéfalo. A miséria desencefaliza e é sempre útil à nanopolítica, que hoje habita as instâncias parlamentares, da federação às municipalidades. Sem garantir universalidade, como preconizara Kant, ao sagrado direito ao esclarecimento, seguiremos a tomar distância da grande política, como pensara Gramsci, e a afundar na barbárie produzida pela civilização da venalidade universal.

 

*O autor é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, base da ADUA-S.Sind., filho dos rios Solimões e Jaguaribe e devoto do Padim Ciço. Em Manaus, AM, 12 de abril de 2018

 

Ilustração: Reprodução/site Farofa Filosófica.com