Produtos da Zona Franca
Publicado em: 26/04/2011 às 00:00 | Atualizado em: 26/04/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Sentado sobre um monte de terra da beira da BR-174, ao lado da esposa, uma senhora de olhos ameríndios, pele e cabelos afros, com mechas brancas começando a aparecer, seu Raimundo espera o ônibus. Riscando o barro do acostamento, nem demonstra a angústia que sua fala despida de ânimo ou permeada de desânimo pronunciaria à abordagem: “Vou ver meu filho que está baleado no hospital”, respondeu-me.
Aquela frase e o cenário de fim tarde e da maior e mais longa rebelião da história do sistema prisional do Estado, nos primeiros dias de 2004, retornaram-se a minha mente na semana que passou, quando voltei àquele trecho da estrada (km oito) para cobrir a inauguração de mais um presídio de Manaus. Ao sair da solenidade, que teve até a presença do ministro da Justiça, vi-me outra vez a ouvir a voz sussurrada daquele drama.
Como fazia há dois anos, seu Raimundo havia ido ao presídio visitar o filho mais velho de 25 anos de idade e o outro, de 23 anos, que estava recém-chegado ali, após condenação por assassinato, mesmo crime que levou à cadeia o irmão mais velho. Era manhã de sábado, terceiro dia do ano. Ele e a esposa estavam entrando na ala onde estava o filho de 25 anos, quando foram orientados a entrar em uma das celas.
“Foi uma gritaria e tiros pra todo lado”, relatou.
Só depois disso, seu Raimundo se deu conta de que o presídio havia lombrado (deflagração de rebelião, na linguagem dos detentos). No local aonde fora recolhido, todos estavam bem. Não havia nenhum ferido. Mas seu Raimundo não tinha notícia do outro filho, até que recebeu a informação do mais velho: “É o mano!”.
O “é o mano” descrevia sem humanidade a retirada de um dos feridos, carregado pelos colegas pelos braços e pelas pernas. Seu Raimundo viu o filho ensanguentado e com a cabeça pendurada, como se ele estivesse desacordado. Ele se pegava com tudo para se convencer de que o garoto estava vivo, mas a única coisa que ouvia era que “todos estavam mortos”.
Seu Raimundo veio para Manaus no início da década de 1980, expulso pela miséria do interior do Alto Solimões e atraído pela propaganda de emprego fácil e bom salário que se propagandeavam com o auge do comércio da Zona Franca de Manaus. “Lá, a gente plantava. Até que dava, mas não tinha para quem vender”, comentou, explicando um dos motivos que o fez deixar a roça.
Ouvindo a explicação, perguntei a seu Raimundo sobre os rapazes: se eram bons filhos, se haviam estudado, se trabalhavam… e ele, pelo nariz, respondeu positivamente ao interrogatório: “Hã! Ham!”.
Ainda fiz várias perguntas para ele, que, de quando em vez, era ajudado nas respostas pela mulher, mas, depois voltei a falar sobre o filho baleado e ele: “O pessoal aí diz que ele está bem, mas aqui fora todo mundo diz que eles morreram. Vou lá!”
Era quarta-feira, quarto dia da rebelião, e fiquei imaginando o drama que aquele homem vivera sem ter a certeza sobre a vida do filho. Nessa hora, fiz uma expressão que até parece que o casal ouvia meu coração. Tanto ouviu que a esposa do seu Raimundo logo falou:
“É, seu moço, a gente está sofrendo mesmo, porque, se a gente encontrar ele vivo no hospital, ainda hoje nós vamos lá para o Puraquequera. Lá a gente tem outro filho preso”.
O Puraquequara, senhoras e senhores, foi outro presídio que também passou por rebelião, naquele início de 2004. Nesse local, a tragédia foi maior. Em apenas algumas horas de motim, sete presos morreram.
*Filósofo e escritor.
