Contra Manaus ou Belém, o preconceito é o mesmo
Os ataques contra a COP-30 em Belém se comparam aos realizados contra a Copa do Mundo de 2014, em Manaus, e a criação da Ufam. É o que traz à luz Serafim Corrêa. Leia no artigo.
Por Serafim Corrêa*
Publicado em: 30/08/2025 às 09:35 | Atualizado em: 30/08/2025 às 09:36
Quando a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), o braço da ONU que cuida das mudanças climáticas decidiu fazer a COP-30 em Belém, todos sabiam a realidade da Amazônia.
Aqui é quente, chove muito, afinal, estamos acima da Linha do Equador, portanto numa região tropical.
E as cidades amazônicas não tinham uma estrutura básica, por exemplo, de hotelaria que abrigasse com o conforto europeu ou americano.
A meu ver, foi exatamente por isso que a COP-30 será na Amazônia: para o mundo sentir o que é viver na Amazônia.
No entanto, no dia seguinte à escolha, começaram os ataques, em especial do Sul e Sudeste, contra a sede da COP-30 ser em Belém.
Os contrários bradaram: “melhor seria no Rio, São Paulo ou Belo Horizonte”.
E de lá para cá os ataques de todas as ordens só aumentaram.
Deixou de ser discordância para ser ódio contra a região.
Isso me fez relembrar a Copa do Mundo de 2014, quando Manaus foi uma das sedes.
Logo após a decisão que incluiu nossa capital dentre as cidades escolhidas começou a ladainha: “Manaus não tem estádio, nem rede hoteleira capaz de receber os turistas”, “Se começar a fazer agora, não vai dar tempo”, ‘Manaus não tem futebol e fica muito longe”.
Ainda devemos uma homenagem ao Aldo Rebelo, ministro dos Esportes, que nos defendeu como se fosse um filho de Ajuricaba. E foi linchado pela imprensa do Rio e São Paulo.
Fica claro que o preconceito contra a COP-30 em Belém é o mesmo quando da Copa do Mundo em Manaus.
Registro que isso não é de hoje e relembro um fato da maior relevância para entendermos essa situação e a nossa história.
O sonho da juventude secundarista de Manaus na década de 60 era a refundação da Universidade Federal do Amazonas.
É mérito do então deputado federal Arthur Virgílio Filho (pai do ex-prefeito de Manaus por três vezes Arthur Virgílio Neto) ter apresentado o projeto que transformaria em realidade aquele nosso anseio.
Teve ao seu lado na luta parlamentar o nosso estimado Almino Afonso, também deputado federal.
A oposição ao projeto veio das bancadas do Sudeste com argumentos que mostram que o preconceito contra a Amazônia vem de longe.
Diziam eles: “Pra que uma Universidade numa cidade que não tem professores, nem alunos?”, “Para a Amazônia basta a Universidade do Pará (criada em 1957)”.
A luta de Arthur e Almino foi em frente e a Universidade do Amazonas foi recriada em 1962 pela Lei nº 4069-A, de 12 de junho, sancionada pelo presidente Jango e pelo 1º ministro Tancredo Neves (lembrem-se que o Brasil nessa data era parlamentarista).
Portanto, o preconceito contra Belém ou Manaus é o mesmo e vem de longe.
Afinal, somos todos filhos do Grão-Pará e Rio Negro.
*O autor é secretário do Governo do Amazonas.
Foto: divulgação
