Editorial BNC | A hipocrisia social é o mel do tráfico e o triunfo dos justiceiros
Discurso que o presidente da Colômbia, Gustavo Petro (foto), fez em Manaus apavorou a sociedade e, sobretudo, políticos justiceiros. Ele propôs legalizar a cocaína
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 12/09/2025 às 14:48 | Atualizado em: 12/09/2025 às 15:03
A breve passagem por Manaus nesta semana do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, provocou reações que se assentam na hipocrisia da sociedade.
Na capital do Amazonas, Petro defendeu a legalização da cocaína. Para ele, esse é o caminho para o fim da máfia e da destruição da selva amazônica.
De pronto, o chefe de Estado colombiano foi chamado de louco, chefe do tráfico. A ideia, a tese, que levantou, porém, foi posta de lado. Ou seja: mata-se logo o mensageiro antes que a mensagem chega ao seu destino.
E qual seria o destino desta mensagem? A sociedade, por natureza, hipócrita.
Ao eliminar o mensageiro sem conhecê-lo exclui-se também a possibilidade de saber como ele pode contribuir num tema que o poder público, no mundo inteiro, enfrenta como uma guerra, que só perde.
Petro fala com propriedade, com autoridade não por ser um presidente de Estado, mas pelo lugar de onde ele vem.
A Colômbia é um dos maiores produtores de droga do planeta e viveu mais de meio século (1964-2016) uma tragédia humanitária por causa do mercado de cocaína que encontroou força no debate ideológico para crescer, no pós-guerra. Uma guerra civil se instaurou no país com exércitos, guerrilhas e paramilitares envolvidos com o tráfico.
Narcotraficantes ocuparam posições de poder. O mundo viu o nascimento de uma sociedade de droga.
Dessa experiência, o país vizinho tira lições ou tenta encontrar caminhos para superar o problema.
O que Petro falou na capital do Amazonas, ao lado do presidente Lula da Silva, não tem nada de novo. Por exemplo, nos Estados Unidos, maior financiador do tráfico do mundo, pois é um dos maiores consumidores de cocaína do planeta, o uso de droga é legal. Há leis que descriminam o uso de entorpecentes.
No país de Trump, não há legislação federal, mas estados como Califórnia, Colorado e Nova Yorque, só pra citar alguns, o uso da cannabis recreativa tem regulamentação.
Ainda no norte do continente, o Canadá legalizou a maconha para uso recreativo em 2018.
Perto de nós, em 2013, o Uruguai tornou-se o primeiro país do mundo a legalizar totalmente cultivo, venda e consumo da cannabis, sob regulamentação do estado.
Na Europa, Portugal, Suíça, República Tcheca e Espanha criaram programas, regras, de descriminalização do uso de drogas.
Em processo de debate do assunto estão Nova Zelândia, África do Sul, Marrocos, Chile, Argentina , México e a Colômbia.
Ou seja: a oratória do presidente da Colômbia não é nova. Talvez seja para os brasileiros, que tentam fazer de sua hipocrisia uma cortina de fumaça para esconder o problema que bate à porta das famílias.
Hoje, no Brasil, a droga avança aceleradamente não somente como questão de saúde pública e de segurança.
- O tráfico se instala em todos os segmentos da vida das pessoas e da estrutura do estado. Instala-se também na economia e no desenvolvimento do país.
Prova disso estão na descoberta do envolvimento da Faria Lima, em São Paulo, com o tráfico, e os foguetórios das facções narcotraficantes em Manaus. A pirotecnia, que já aconteceu em escala estadual, nos faz supor que a droga emprega no Amazonas mais gente do que o polo industrial da Zona Franca de Manaus como um modelo incentivado tributariamente.
O Brasil pode até adiar a discussão, se nao encontrar uma solução eficiente, mas, talvez, poderá sentir no futuro sua necessidade.
Por enquanto, a hipocrisia vence. E vence servindo de mel ao tráfico, que agradece, pois da ausência do Estado depende sua existência.
E vence sustentando discursos de políticos justiceiros que sabem que só existem enquanto o crime que eles dizem combater existir.
Foto: Ovidio González/Presidencia de la República
