Ministro não viu portos de Manaus no pior cenário do rio Negro

Sílvio Costa Filho visita Manaus em momento de vazante atípica, com o nível do rio 10 metros acima do normal.

Adríssia Pinheiro, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 29/09/2025 às 12:27 | Atualizado em: 29/09/2025 às 12:28

O ministro dos Portos e Aeroportos, Sílvio Costa Filho, está em Manaus neste dia 29 de setembro, segunda-feira, para entregar balsas e lançar investimentos na caótica zona portuária da capital, sobretudo no chamado porto da Manaus Moderna.

O detalhe é que o ministro nem pôde perceber o nível de dificuldades e problemas enfrentado pelo amazonense nesse local durante a vazante do rio.

Tudo porque o Negro exibe um cenário atípico para essa época do ano: o nível da água na régua do porto privatizado está praticamente 10 metros acima da cota registrada na pior seca da história, vivida há apenas um ano.

Dessa forma, se há benefício para a navegação, o rio Negro acabou escondendo de Costa Filho o cotidiano do povo amazonense na região portuária, incluindo o roadway do porto entregue ao capital privado.

Se neste 29 de setembro o nível marca 22,94 metros, em 29 de setembro de 2024 a marca era de apenas 13,36 metros — uma diferença drástica de 9,58 metros que muda tudo, do pulso econômico à solidão das comunidades cortadas pelo leito seco do rio.

Em 2025, a cheia castigou 42 dos 61 municípios do Amazonas, com mais de 500 mil afetados. A cidade resistiu com portos ativos, navios atracando, escolas abertas, mas enfrentando bairros alagados, plantações submersas e estradas interrompidas.

O movimento inverteu-se em 2024: a seca histórica em Manaus expôs areia, afastou navios cargueiros e isolou comunidades que, sem o rio navegável, perderam o elo com saúde, comida e educação.

Cargas precisaram de balsas menores, a indústria sofreu custos e atrasos, 29 escolas encerraram as aulas antes da hora e a orla tornou-se apenas terra.

É como se água “a mais” garantisse abastecimento, funcionamento industrial e rodízio de trabalhadores; e água “a menos” paralisasse, isolasse e tirasse da rotina milhares de famílias que dependem do leito navegável para tudo.

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Contrastes

A visita de Costa Filho ocorre em meio a esse contraste. Em Manaus, ele entrega as primeiras balsas de minério de ferro produzidas pelo estaleiro Juruá, parte de um projeto que prevê 128 embarcações para atender o estado.

A agenda inclui ainda anúncios de investimentos em portos de Eirunepé e Envira, no interior.

Se a visita tivesse ocorrido em 2024, o cenário seria de alerta máximo: navios distantes do cais, produção emperrada e economia regional sob risco de colapso. Hoje, a cheia de 2025 garantiu a navegabilidade, mas mascarou as urgências: infraestrutura portuária preparada para todos os ciclos é necessidade vital para Manaus seguir pulsando, independentemente da maré de seu principal rio.

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Foto: Ronaldo Siqueira/especial para o BNC Amazonas