Massacre no Rio supera Gaza e expõe fracasso do governo bolsonarista

Governador chama de “sucesso” ação com 128 mortos, ignora apoio federal e reforça discurso bolsonarista da força.

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 29/10/2025 às 13:02 | Atualizado em: 29/10/2025 às 13:04

O governador do Rio de Janeiro e seus chefes da segurança pública amanheceram nesta quarta-feira (29 de outubro) notoriamente abalados pela repercussão mundial negativa da operação policial que resultou em uma das maiores chacinas da história recente do país.

Segundo o governador Cláudio Castro (PL), foram 58 mortos, entre eles quatro policiais, mas dados extraoficiais e relatos de moradores apontam para 128 mortos, sendo 64 corpos expostos nesta manhã em praça pública pela comunidade, conforme noticia o portal ICL Notícias.

A ação, conduzida sob o argumento de combater o crime organizado, teria como objetivo cumprir 100 mandados de prisão de supostos “narcoterroristas”, nas palavras do secretário da Polícia Civil.

O resultado, contudo, foi devastador: 124 populares mortos, 4 policiais mortos e 113 pessoas presas, segundo balanço da própria cúpula da segurança fluminense.

“Moradores afirmam que ainda há muitos mortos no alto do morro. O ativista Raul Santiago, que está na praça São Lucas, para onde os corpos estão sendo levados, afirmou, ao site G1, que, em 36 anos, nunca viu ‘nada parecido com o que estou vendo hoje. É algo novo. Brutal e violento num nível desconhecido’, disse” ao ICL Notícias.

Veja vídeo 

Vídeo: Raull Santiago/ICL Notícias

Castro se isola e exalta a violência

O governador chamou a operação de “um sucesso absoluto”, afirmando que o Rio “não pode se ajoelhar diante de criminosos” e que a ação representou “uma vitória do bem contra o mal”.

Castro disse ter recebido apoio de governadores bolsonaristas, como Tarcísio de Freitas (SP) e Ronaldo Caiado (GO), mas ignorou as críticas do governo federal e de entidades de direitos humanos.

“O crime organizado não vai ditar o ritmo do Estado. Essa é uma demonstração de força e coragem das nossas forças de segurança”, declarou Castro, ao ser questionado pela imprensa sobre o número de mortos.

Internamente, a avaliação no governo federal é de que Castro desprezou o apoio da União antes da operação e, em seguida, passou a se queixar publicamente de estar “sozinho”.

Segundo fontes do Ministério da Justiça, o Planalto foi informado tardiamente da ação, o que aumentou o desconforto político entre os dois níveis de governo.

Depois de perceber que a operação tomava um rumo descontrolado de matança, o governador ligou para a ministra Gleisi Hoffmann:

"Depois de afirmar que o governo federal havia deixado o Rio de Janeiro 'sozinho' durante a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, o governador Cláudio Castro (PL) recuou. Ele ligou para a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, para dizer que não quis atacar o presidente Lula e que o pedido de ajuda era apenas por blindados — e não por tropas federais".

Foi o que escreveu Cléber Loureiro em reportagem para o ICL Notícias.

Conexões políticas e retórica bolsonarista

A ofensiva surge dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defender, em entrevista, a presença dos Estados Unidos no litoral do Rio sob o pretexto de combater “narcoterroristas”.

A coincidência temporal levantou suspeitas de que a operação fluminense teve motivação política, reforçando a narrativa bolsonarista de militarização da segurança pública e o discurso de “guerra ao crime” que marcou o governo anterior.

O modelo do extermínio

Para analistas, a operação reitera o fracasso histórico das políticas de confronto adotadas no Rio, que se sucedem sem reduzir o poder das facções nem das milícias.

As execuções, desaparecimentos e o terror imposto às comunidades revelam um governo acuado, incapaz de garantir segurança, mas eficiente em transformar a morte em estatística e propaganda política.

“Quando o governo celebra uma chacina, ele confessa que perdeu o controle sobre a própria polícia”, diz o sociólogo José Cláudio Souza Alves, da UFRJ. “O Rio repete o modelo do extermínio como resposta à falência do Estado.”

Repercussão internacional

A tragédia repercutiu amplamente em veículos estrangeiros como The Guardian, Le Monde e El País, que destacaram a brutalidade da ação e a complacência das autoridades brasileiras.

Organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch cobraram investigação independente.

A ONU relatou que, no mesmo período, a média diária de civis mortos na Faixa de Gaza foi inferior ao número de vítimas no Rio de Janeiro. Esse contraste levou jornais europeus a classificar o episódio como “dia de guerra no Brasil”.

A guerra dentro do Brasil

IndicadorOperação no Rio (out/2025)Conflito em Gaza (ONU, média diária 2025)
Mortos (civis e policiais)128 (124 civis + 4 policiais)97 civis
Presos113
Mandados de prisão100
Corpos localizados (ICL)64
Duração da operação15 horas
Apoio políticoGovernadores bolsonaristas
Reação internacionalCondenação e espantoCondenação parcial

O cidadão refém do medo

A população, mais uma vez, pagou o preço da política da bala.

Em várias favelas, moradores relataram corpos abandonados, falta de perícia e impedimento de socorro.

Enquanto o governador exibia apoio político, famílias procuravam parentes desaparecidos, estudantes não conseguiam voltar para casa e crianças voltavam a dormir no chão para se proteger dos tiros.

“O governo chama de sucesso o que, para nós, é o fim de qualquer esperança de paz”, lamentou uma moradora da zona norte.

Violência e o uso político

A operação que Cláudio Castro chama de “vitória” expõe o colapso da segurança pública e o uso político da violência.

Sem diálogo com o governo federal, o governador repete estratégias falidas e transforma o Rio em vitrine de barbárie, onde milícias, facções e agentes do Estado disputam o mesmo território.

No fim, quem morre é sempre o mesmo povo que o Estado promete proteger.

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Foto: reprodução/ICL Notícias