Primeira greve no Polo Industrial de Manaus celebra 40 anos
Momento que marcou a história dos trabalhadores, o movimento sindical e a luta de classes na indústria da ZFM será homenageado no dia 7 pela CMM
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 31/10/2025 às 15:00 | Atualizado em: 31/10/2025 às 16:02
A Câmara Municipal de Manaus (CMM) realiza, no próximo dia 7 de novembro de 2025, às 13h30, sessão solene em homenagem aos 40 anos da Greve dos Trabalhadores do Distrito Industrial de Manaus. O movimento marcante na luta de classes na indústria da Zona Franca de Manaus (ZFM) aconteceu em agosto de 1985. Até hoje, a paralisação se tem como um dos marcos mais importantes da história do sindicalismo amazonense.
A solenidade, proposta pelo vereador José Ricardo (PT), reunirá trabalhadores, ex-dirigentes, familiares e lideranças políticas e sindicais.
A ideia é tornar a solenidade num tributo à luta que consolidou o Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas (Sindmetal-AM) como referência na defesa dos direitos da classe trabalhadora na Amazônia.
O Sindmetal-AM participa ativamente da cerimônia. Nesse sentido, convoca as classes trabalhadoras e despertando o espírito de união e resistência que marcou o movimento grevista em Manaus.
A entidade fortalece a homenagem como um gesto de memória e reafirmação das conquistas alcançadas há quatro décadas. Dessa forma quer ressaltar que cada direito preservado hoje nasceu da coragem daqueles que lutaram em 1985.
A greve histórica
A greve teve início em 1º de agosto de 1985, quando os metalúrgicos do Distrito Industrial de Manaus decidiram paralisar as atividades em protesto contra as condições precárias de trabalho nas fábricas.
O movimento começou nas indústrias do setor metalúrgico. Em poucos dias, ganhou adesão de trabalhadores de outras categorias do Polo Industrial, tornando-se uma das maiores mobilizações trabalhistas já registradas no Amazonas.
Luta contra comida estragada
As reivindicações buscavam melhores condições de trabalho e dignidade nas fábricas. Na pauta, incluia-se o fim da comida estragada que se servia nos refeitórios. Além disso, a garantia de água potável para consumo, o combate ao assédio moral e sexual, o fim das demissões de mulheres grávidas e a igualdade de tratamento entre trabalhadores e chefias. Em meio a jornadas exaustivas e condições degradantes, os operários transformaram a indignação em coragem e decidiram parar a produção em busca de respeito e justiça.
Conquista de referência nacional
Mesmo sob forte repressão policial e ameaça de prisões, o movimento resistiu e resultou em conquistas históricas. Entre os marcos de resistência, está a primeira cláusula de estabilidade para gestantes no Brasil. Posteriormente, o benefício foi incorporado à Constituição Federal de 1988.
Outra vitória foi a unificação dos refeitórios, que até então separavam trabalhadores e gestores em diferentes espaços e cardápios.
“Essa homenagem é um tributo à coragem de quem enfrentou o medo e acreditou que a união muda destinos. A greve de 1985 foi o início de uma nova consciência para o trabalhador amazonense”, afirma Valdemir Santana, presidente do Sindmetal-AM.
Durante o movimento, as empresas acionaram a polícia de choque, que mantinha um quartel dentro do Distrito Industrial, para reprimir piquetes e manifestações.
Houve confrontos, prisões e ameaças. Um dos episódios mais marcantes foi o do então secretário-geral do sindicato, Elias Sereno, retirado à força de um carro de som em frente à empresa Siderama e levado à DOPS, onde permaneceu detido até ser libertado à noite, após intensa mobilização dos trabalhadores.
Apesar da repressão, a greve se consolidou e conquistou apoio de outras categorias e de parte da imprensa local, que deu visibilidade à causa.
Palavra do ex-presidente
O ex-presidente Ricardo Moraes, que comandava o sindicato durante a paralisação, relembra o significado do movimento:
“Essa homenagem tem um peso histórico e político muito forte. Foi um movimento que teve reflexo nacional e marcou uma mudança de época. Enfrentamos a repressão, o medo e a falta de direitos básicos, mas saímos com a cabeça erguida e a certeza de que a união transforma. Ver essa história reconhecida quarenta anos depois é reviver um tempo de luta e esperança.”
Para o sindicato, a homenagem representa mais do que um tributo. É, disse Moraes, a reafirmação do compromisso com os trabalhadores e com a memória de quem construiu essa trajetória.
O Sindmetal-AM se coloca como guardião do legado de 1985, lembrando que cada conquista atual tem origem na resistência daqueles que enfrentaram a repressão e abriram caminho para o futuro.
“Aquela luta de 1985 não acabou. Ela segue viva em cada trabalhador que acredita na força da união”, conclui Valdemir Santana.
Foto: divulgação
