Crime organizado: o que esperar de CPI com Moro, F. Bolsonaro, Do Val, Girão… !?
Comissão para enfrentar facções, milícias e lavagem nasce com cara de reality
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 03/11/2025 às 23:50 | Atualizado em: 04/11/2025 às 00:17
A CPI do crime organizado no Senado, que anunciou seus membros hoje (3 de novembro) e amanhã se instala, já desperta o sentimento mais brasileiro possível: descrença com pitadas de sarcasmo.
O país olha para os nomes escalados e pensa o óbvio: é esse o time que vai investigar o crime?
No banco dos “investigadores”, aparecem personagens que, em outro roteiro, poderiam estar do lado oposto da mesa, como investigados, delatados ou testemunhas constrangidas.
Em vez de promotores firmes, surgem perfis conhecidos por rachadinhas, parcialidade judicial declarada, teorias golpistas, atos teatrais e devoção às guerras culturais.
"É como convidar piranha para organizar o açude", diz um comentarista da política.
Se não, vejamos algumas figuras carimbadas da política que estão bem presentes no
ranking da dúvida do cidadão.
• Flávio Bolsonaro: Investigado por rachadinhas, suspeitas de vínculo com milícias no Rio e herdeiro direto de um projeto político acusado de blindagem de aliados, tende a atuar mais como peça de defesa de grupo do que como fiscal da criminalidade. Investigações apontam que o esquema de “rachadinhas” em seu gabinete na ALE-RJ envolvia desvio de parte de salários de assessores lotados, o que gerou denúncia de lavagem de dinheiro e organização criminosa. Há articulações apontadas entre sua família e milícias do Rio de Janeiro, conforme reportagem do The Intercept que as associa à construção irregular de prédios financiados por dinheiro público. Sua presença em uma CPI do crime organizado suscita dúvidas sobre a capacidade e vontade de investigar o próprio círculo político e econômico que lhe é próximo.
• Sérgio Moro: declarado um juiz parcial pelo STF, agora candidato a justiceiro parlamentar. Sua presença reforça o temor de espetacularização do processo e uso da CPI como arena eleitoral. Conduziu como magistrado casos que ganharam projeção nacional, mas em março de 2021 a segunda turma do STF declarou sua parcialidade no julgamento de Lula da Silva. Ao migrar para o Legislativo, carrega o legado de uma figura de “moralização” que, para críticos, converteu-se em ator político, o que reduz sua credibilidade técnica para checar estruturas de crime organizado. Foi ministro de Bolsonaro, mas aceitou interferência em seu trabalho. Participar de uma CPI com poderes de investigação pode gerar conflito de papel: aquele que atuou como juiz torna-se investigador/politico, fragilizando a narrativa de isenção.
• Marcos do Val: associado a relatos de articulações golpistas e narrativas conspiratórias. A expectativa é de ruído e polarização, com baixa capacidade técnica e instabilidade discursiva. Em 2023, prestou depoimento à Polícia Federal sobre suposta “trama golpista” na reunião de 8 de dezembro no Palácio da Alvorada, onde teria sido proposta gravação do ministro Alexandre de Moraes. Mudança de versões e envolvimento em narrativa de insurreição ou pressões políticas reduzem credibilidade para liderar ou participar de investigações sérias. Em comissão que visa investigar crime organizado, representa risco de distorção de foco e instrumentalização política.
• Magno Malta: figura marcada por polêmicas e retórica incendiária, tende a priorizar o discurso ideológico sobre a construção de caminhos concretos para desarticular facções. Já foi citado no relatório da CPI dos Sanguessugas por suposto envolvimento com sistema de desvio de recursos para ambulâncias. Em 2023, acorrentou-se à mesa do Senado declarando “sou-só-mais-um-morto-se-tirarem-Bolsonaro”, incitando possível obstrução institucional.
• Eduardo Girão: militância religiosa e foco na moral, não no crime.
Essa CPI parece menos uma força-tarefa e mais um elenco cuidadosamente escolhido para não chegar a lugar nenhum.
A pergunta que não cala e que o povo faria
Se o objetivo é enfrentar o crime organizado, então cabe, de cara, uma pergunta singela:
Quem essa CPI vai intimar para depor?
• Milicianos?
• Chefes do PCC e do CV?
• Militares?
• Bicheiros?
• Policiais?
• Magistrados?
• Banqueiros e “fintechs geniais” do dinheiro sujo?
• Políticos?
Silêncio constrangedor.
É como montar uma tropa contra o crime e entregar a chave do arsenal ao inimigo antes da batalha.
O brasileiro vê, entende e ri, mas com aquele riso triste que acompanha promessas repetidas demais.
O cartaz do “eu já sabia!” está pronto
A CPI nasce para:
• Fazer discurso inflamado
• Proteger amigos e atacar adversários
• Inflar redes sociais
• Simular combate enquanto o crime verdadeiro agradece
No Brasil, facções controlam presídios, milícias ocupam bairros e cartéis lavam bilhões.
Enquanto isso, o parlamento inaugura mais uma arena para disputas cansativas e improdutivas de narrativas, não para investigar o câncer que se espalha na estrutura de poder do país.
Dessa forma, o brasileiro, escaldado, resume assim:
Se o crime organizado tivesse que escolher quem iria investigá-lo, escolheria exatamente esse time, com as honrosas exceções.
Fotos: Marcello Casal jr/Jefferson Rudy e Fabio Pozzebom
