Deputado acusa Câmara de Hugo Motta de facilitar fuga de Ramagem
Voto do bolsonarista no projeto antifacção expõe direção da Câmara, que autorizou deputado a trocar chip do celular para uso no exterior
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 21/11/2025 às 21:09 | Atualizado em: 21/11/2025 às 21:09
O deputado Rogério Correia (PT-MG) acusou formalmente a Câmara dos Deputados de facilitar a fuga do colega Alexandre Ramagem (PL-RJ) e de autorizar sua participação no voto remoto do projeto antifacção por meio de chip institucional com roaming internacional.
O episódio ganhou corpo neste dia 21 de novembro após revelações de que Ramagem teria trocado o chip do celular funcional, habilitado pacote de dados para uso no exterior e votado a favor do substitutivo de Guilherme Derrite (PL-SP), mesmo estando com passaporte recolhido por ordem do STF.
Esquema investigado
Documentos internos obtidos pela imprensa indicam que no dia 18 de novembro, data em que o plenário da Câmara analisava o substitutivo de Derrite ao projeto do governo Lula, o deputado Ramagem assinou digitalmente três formulários para:
• trocar o chip físico da linha institucional,
• habilitar roaming internacional e
• ativar o pacote “Passaporte Américas – 40 GB” para uso no exterior.
Essas solicitações ocorreram apesar de decisão do STF que impunha restrição de viagem e recolhimento de passaporte a Ramagem.
Fontes no Palácio do Planalto afirmam que o voto de Ramagem, a partir de fora do país, foi determinante para manter trechos do substitutivo considerados prejudiciais à atuação da Polícia Federal, favorecendo policías estaduais.
Versão da Câmara
A Câmara de Hugo Motta (PL-PB) divulgou nota afirmando não ter conhecimento da viagem de Ramagem e que ele estava em licença-saúde, condição que permitiria voto remoto.
Pelas normas da casa, para votar no exterior é necessário habilitar os serviços de telecomunicação internacional, autorização que só pode ser concedida formalmente após checagem técnica interna.
Os formulários revelados desmontam a versão de desconhecimento e indicam que setores da Câmara tinham ciência da localização do parlamentar.
Projeto antifacção pode ser anulado
Ramagem, condenado pelo STF a mais de 16 anos de prisão por participação no plano golpista de Bolsonaro, havia sido proibido de deixar o país e teve seu passaporte recolhido.
A decisão de prisão preventiva foi publicada na quinta-feira recentemente pelo ministro Alexandre de Moraes após indícios de fuga para os Estados Unidos.
O deputado Rogério Correia afirma que a Câmara “fez vista grossa” e participou, ainda que indiretamente, da facilitação da fuga.
Ele defende a anulação da votação do projeto antifacção e responsabilização da mesa diretora da casa.
A mesa diretora da Câmara, presidida por Hugo Motta, agora vê pressionado seu posicionamento político-administrativo sobre o episódio.
Encaminhamentos
O PT protocolou uma série de requerimentos à mesa diretora de Hugo Motta para que sejam esclarecidos:
• os termos e prazos da licença-saúde de Ramagem;
• a data e autorização da troca de chip e ativação de roaming internacional;
• registro de presença, justificativas médicas e uso remoto em sessões entre setembro e novembro;
• a eventual comunicação ao STF da saída do parlamentar do território nacional.
Especialistas apontam que, se reconhecida a irregularidade, a sessão poderá ser anulada, reabrindo o debate sobre quem assinará por sua legalidade.
O procedimento, contudo, depende diretamente da mesa da Câmara, tornando a solução menos técnica e mais política.
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Foto: Márcio Agra
