COP-30 deixa pacote climático histórico, mas sem metas para fósseis
Acordo aprovado por 195 países reforça financiamento, proteção às florestas e adaptação, mas deixa lacunas sobre combustíveis fósseis.
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 24/11/2025 às 09:39 | Atualizado em: 24/11/2025 às 09:42
Encerrada em Belém com a aprovação unânime do Pacote de Belém, a COP-30 entregou 29 decisões que agora compõem o novo arcabouço climático global.
São avanços relevantes em florestas, financiamento, adaptação e justiça climática, com impactos diretos para a Amazônia. Mas, a falta de metas vinculantes para combustíveis fósseis deixa uma sombra sobre o alcance real do acordo.
A seguir, um panorama do que ficou de legado:
Financiamento e adaptação
O Pacote de Belém ampliou compromissos financeiros para países em desenvolvimento, com a meta de triplicar os recursos de adaptação até 2035 e mobilizar volumes anuais superiores a US$ 1,3 trilhão.
Esse eixo é particularmente importante para regiões amazônicas sujeitas a extremos climáticos, como secas prolongadas, inundações severas, incêndios florestais e impactos diretos sobre povos indígenas e ribeirinhos.
Novo fundo global para florestas tropicais
Um dos pilares mais celebrados foi a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, com adesão inicial de 63 países e cerca de US$ 6,7 bilhões comprometidos.
O mecanismo remunera nações que preservam florestas, ponto crucial para o Brasil e especialmente para estados amazônicos.
O modelo abre caminho para ações de conservação com pagamento por serviços ambientais, fortalecendo comunidades tradicionais e ampliando alternativas ao desmatamento.
Transição, tecnologia e gênero
As decisões incluem diretrizes para transição justa, proteção de trabalhadores vulneráveis e programas voltados a tecnologias limpas.
Também foi aprovado um plano global de gênero, reconhecendo que mulheres, sobretudo indígenas, quilombolas e ribeirinhas, enfrentam impactos climáticos de forma desproporcional.
Esses compromissos têm potencial real para transformar políticas públicas no norte do Brasil.
Florestas, solo e remoções de carbono
O pacote reforça compromissos de conservação, restauração e manejo sustentável dos ecossistemas.
Na Amazônia, esse eixo dialoga com a urgência de frear desmatamento, avançar em rastreabilidade das cadeias produtivas, controlar invasões e garantir segurança territorial para povos indígenas.
A lacuna: combustíveis fósseis sem cronograma
Mesmo com pressão internacional, não houve consenso para estabelecer datas ou metas obrigatórias de eliminação gradual de petróleo, gás e carvão.
Para especialistas, a ausência representa o principal ponto fraco da COP-30, sobretudo porque a transição energética global depende de cortes robustos no uso desses combustíveis.
No contexto amazônico, onde o avanço do petróleo na margem equatorial e foz do rio Amazonas e projetos controversos afetam ecossistemas e comunidades, essa lacuna é particularmente sensível.
Pontos centrais do Pacote de Belém
- • Expansão do financiamento climático e triplo de recursos para adaptação.
- • Criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre.
- • Planos de transição justa e tecnologia limpa.
- • Diretrizes globais de gênero e direitos de comunidades vulneráveis.
- • Proteção e restauração de florestas e solos.
- • Ausência de metas concretas para combustíveis fósseis.
O legado imediato
O maior ganho simbólico e político da COP-30 foi reunir 195 países em torno de uma agenda climática com forte protagonismo amazônico, e sediada na Amazônia.
O pacote cria caminhos para financiamento, fortalece a proteção florestal, amplia direitos de povos tradicionais e reconhece desigualdades climáticas.
Também abre espaço para programas de transição econômica que podem reposicionar a região.
O que ainda depende de prática
A implementação será o teste definitivo. Muitos dispositivos aprovados precisam de regulamentação, governança internacional clara e participação local.
Na Amazônia, a efetividade depende de controle do desmatamento, proteção territorial, fiscalização ambiental, investimentos sólidos e envolvimento direto de comunidades indígenas e ribeirinhas.
Sem metas para combustíveis fósseis, parte da ambição climática permanece inconclusa, e coloca sobre o Brasil a responsabilidade de equilibrar desenvolvimento, energia e proteção ambiental.
Promessas
A COP-30 deixa um legado relevante, com instrumentos inéditos e amplo esforço diplomático. Mas, a distância entre decisão e realidade será determinante para saber se o Pacote de Belém será lembrado como um avanço histórico ou como mais uma promessa adiada.
Para a Amazônia, e para o mundo, a implementação será a verdadeira cúpula.
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