Governo requisita 57 inquéritos por crimes contra a honra de Lula
Apuração vai desde um sinal de wi-fi de um policial militar em Porto Velho até o grito de uma mulher dentro de um Audi em um bairro nobre de São Paulo.
Publicado em: 31/12/2025 às 19:59 | Atualizado em: 31/12/2025 às 20:00
A vigilância sobre a honra do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou os gabinetes de Brasília e ganhou contornos de uma operação de monitoramento cotidiano. Nos últimos três anos, o que antes poderia ser ignorado como ruído de rua transformou-se em 57 inquéritos policiais, um volume de investigações que supera em quase quatro vezes o total registrado durante os quatro anos da gestão anterior.
A narrativa dessa ofensiva jurídica não se limita a grandes tribunais; ela acontece em momentos inesperados.
Começa no sinal de wi-fi de um policial militar em Porto Velho, batizado provocativamente de “Lula Ladrão”, e passa pelo grito de uma mulher dentro de um Audi em um bairro nobre de São Paulo.
Em ambos os casos, a resposta foi institucional: a identificação pela placa do carro, a abordagem da Polícia Federal (PF) e o depoimento na delegacia sob o signo do arrependimento ou do “impulso”.
O cerco também se estende ao mundo das imagens digitais.
O Ministério da Justiça, sob o comando de Ricardo Lewandowski, não hesitou em pedir investigações sobre montagens que apelidavam o petista de “Zé Pilantra”, uma sátira com a entidade religiosa Zé Pilintra.
No Mato Grosso do Sul, um pintor foi levado a prestar esclarecimentos, defendendo-se sob o argumento de ser um “conservador crítico”, sem intenção de atacar a fé alheia.
Mas a Justiça tem imposto limites a esse rigor.
Em episódios envolvendo figuras públicas, como o influenciador Pablo Marçal ou integrantes do MBL, o Ministério Público Federal (MPF) e os tribunais têm puxado o freio.
A tese vencedora nesses arquivamentos é a de que um presidente da República, por ocupar o cargo mais alto da nação, deve cultivar uma “pele mais grossa”.
Para os magistrados, gritos de protesto em eventos públicos ou críticas políticas — ainda que ácidas — fazem parte do escrutínio democrático e não devem ser silenciados pelo aparato criminal.
Enquanto isso, o governo mantém sua postura. O Ministério da Justiça justifica as ações como uma forma de garantir que as instituições possam agir diante de agressões à imagem do chefe de Estado.
Entre as investigações em curso, uma das mais emblemáticas mira o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de compartilhar desinformações que vinculam Lula a ditaduras estrangeiras e perseguições a minorias.
Leia mais
2025: o ano em que o Amazonas reorganizou forças para 2026
Assim, o Brasil de 2025 assiste a um cabo de guerra simbólico: de um lado, a tentativa do governo de restaurar a liturgia do cargo através do Código Penal; de outro, uma sociedade polarizada que testa, a cada grito na rua ou postagem em grupo de WhatsApp, os limites reais da liberdade de expressão.
Leia mais na Folha de S.Paulo
Foto: Ricardo Stuckert/PR
