Tragédia no Amazonas expõe vácuo na fiscalização e falta de informação

Silêncio sobre lista oficial de passageiros e falta de controle em portos elevam angústia de famílias em Nova Olinda do Norte

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 16/02/2026 às 07:21 | Atualizado em: 16/02/2026 às 07:21

O quarto dia de buscas no Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões, nesta segunda-feira (16 de fevereiro) é marcado por uma dolorosa contradição: enquanto mergulhadores do Corpo de Bombeiros desafiam a pressão a 50 metros de profundidade para tirar a lancha Lima de Abreu XV do fundo, a opacidade das informações oficiais gera revolta.

A ausência de uma lista fidedigna de passageiros e as dúvidas sobre a real lotação da embarcação, por exemplo, colocam sob xeque a atuação da autoridade fluvial e de segurança da navegação no Amazonas.

A confirmação pela família do desaparecimento da advogada Ana Carla Izel, nome que inicialmente não figurava com clareza no noticiário, já que oficialmente nada foi feito, reforça a tese de que o controle de embarque nos portos de Manaus, e em todo o estado, é, na prática, inexistente.

Famílias de Nova Olinda do Norte questionam se o número de desaparecidos é maior do que o divulgado, de sete, e denunciam a falta de itens básicos de segurança, como coletes salva-vidas em quantidade suficiente para os mais de 70 ocupantes.

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Estado de ausência

O setor de transporte fluvial na Amazônia, no Amazonas em particular, opera historicamente em uma zona cinzenta.

O naufrágio da última sexta-feira (13) não é um fato isolado, mas o sintoma de uma engrenagem onde o lucro das empresas de navegação muitas vezes sobrepõe-se ao desejado cuidado com a vida humana.

Críticos e especialistas apontam que a fiscalização da capitania fluvial é episódica e insuficiente para cobrir o fluxo intenso que corta os rios Negro, Solimões, Amazonas e Madeira, principalmente.

Enquanto a Justiça do Amazonas mantém a prisão preventiva do comandante, sob indícios de negligência e imprudência, há muitas perguntas que permanecem sem resposta:

– Quem conferiu a lotação antes da partida?

– A tripulação era devidamente habilitada para uma lancha de alta velocidade em condições adversas?

A operação complexa nas águas barrentas do encontro do Negro com o Solimões pode trazer a lancha à superfície, mas dificilmente resgatará a confiança de quem precisa usar o transporte nos barcos e lanchas.

Para Nova Olinda do Norte, o luto pelas mortes de Samyla de Souza e Lara Bianca, e possivelmente pelos desaparecidos, mistura-se à indignação de quem sabe que, sem mudanças na fiscalização, a próxima viagem continua sendo um jogo de azar.

Fotos: reprodução/redes sociais