Record omitiu mortes pela covid-19 em Manaus para proteger Bolsonaro

A ex-âncora da TV Adriana Araújo diz que enquanto corpos era empilhados na capital amazonense ela era obrigada a noticiar reeducação alimentar de macacos

Record omitiu mortes pela covid-19 em Manaus para proteger Bolsonaro

Iram Alfaia, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 18/03/2026 às 11:13 | Atualizado em: 18/03/2026 às 11:13

O apoio de Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da TV Record, a Jair Bolsonaro era público e quem sabe irrestrito. Para proteger o ex-presidente, o bispo supostamente ordenou que imagens das mortes em Manaus pela covid-19 fossem retiradas do ar.

É o que deixa a entender a ex-âncora da tevê Adriana Araújo que foi demitida do canal, onde atuou por 15 anos, por questionar as ordens vinda do alto comando da emissora.

A jornalista disse ao Universa do UOL que, no dia 21 de abril de 2020, enquanto Manaus enfrentava um “colapso”, ela precisou anunciar uma reportagem sobre a reeducação alimentar de macacos.

“É aquela cena das retroescavadeiras abrindo as valas para empilhar os corpos, porque os corpos estavam empilhados dentro dos banheiros dos hospitais ou em caminhões frigoríficos na porta dos hospitais. E naquele dia, embora tivéssemos todas as informações e as imagens, eu fui obrigada a sentar na bancada e noticiar uma reportagem sobre reeducação alimentar de macacos”, revela.

Um dos maiores redutos bolsonaristas, a capital se tornou o epicentro global de uma tragédia humanitária. Pela falta de oxigênio, dezenas de pacientes morreram por asfixia em leitos de hospitais públicos e privados.

Em 2020, a cidade ganhou as manchetes mundiais pela necessidade de valas comuns e câmaras frigoríficas em cemitérios. Os sepultamentos saltaram de uma média de 30 para mais de 100 diários.

Ao ser questionado por jornalistas na saída do Palácio da Alvorada sobre o número de mortos, que havia passado de 2.500 no país, Bolsonaro respondeu: “Eu não sou coveiro, tá certo?”.

Numa live nas redes sociais, em maio de 2021, meses após a trágica crise de oxigênio em Manaus, o ex-presidente falava das pessoas que sitiam sintomas e fez gesto imitando doentes com falta de ar aguda.

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Demissão

Adriana conta que foi demitida da emissora no meio da pandemia de covid-19. “Situação bastante traumática”, diz.

“Eu saí aos prantos da bancada naquele dia, cumpri o que tinha que ser cumprido e naquele dia internamente eu me posicionei e acho que falei que achava aquilo criminoso”, completa.

Ela explica que tinha obrigatoriamente que cumprir a linha editorial e seguir as ordens. “Mas internamente eu questionei algumas situações muito graves e sabia que aquilo representaria uma dificuldade muito grande para mim, como de fato representou”, conta.

A atual âncora do Jornal da Band diz que prefere falar pouco sobre o tema por conta de desdobramentos judiciais em curso, mas celebra o fato de ter virado a página.

Foto: reprodução/X