David Almeida entra hoje para a história política do Amazonas
Prefeito renuncia hoje e faz a transmissão do cargo a Renato Júnior nesta terça, na Câmara Municipal de Manaus
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 31/03/2026 às 05:39 | Atualizado em: 31/03/2026 às 05:39
A política amazonense sempre foi pródiga em personagens que desafiam o cálculo convencional. Poucos, porém, ousaram tanto quanto David Almeida (Avante) ao tomar a decisão de renunciar ao comando de Manaus com apenas 15 meses de um mandato de 48.
Dessa forma, em termos objetivos, ele deixa o cargo após cumprir 31,25% do período para o qual foi eleito em 2024, um gesto raro, abrupto e carregado de riscos.
A renúncia, por si só, já seria suficiente para inscrever seu nome na história política do Amazonas. Mas o contexto amplia o peso do ato.
Almeida deixa a prefeitura no auge de um inverno amazônico, quando a cidade enfrenta eventos climáticos cada vez mais severos, como a chuva histórica registrada na semana passada, exigindo liderança, coordenação e presença institucional. Opta por sair justamente quando Manaus mais demanda estabilidade.
Há, ainda, a contradição política. O mesmo David Almeida que criticou Amom Mandel por renunciar a um mandato para alçar voos maiores agora trilha caminho semelhante, e em escala mais impactante, pois deixa o comando do maior município do estado.
A coerência, nesse caso, cede lugar à ousadia política, uma constante conhecida nos bastidores, mas nem sempre assumida com tamanha clareza.
O movimento ocorre também em meio a um cenário de fragilidade. David Almeida deixa o cargo com elevado índice de rejeição e visível isolamento político. Perdeu aliados estratégicos, como Saullo Vianna e Jesus Alves, ambos hoje alinhados ao senador Omar Aziz, seu adversário.
Além disso, não conta com apoio de deputados federais, tem respaldo limitado na Assembleia Legislativa — restrito, na prática, a seu irmão Daniel Almeida e ao aliado Abdala Fraxe — e tampouco reúne base consistente entre prefeitos ou ex-prefeitos do interior.
David Almeida: a marca da ousadia
Ainda assim, há um traço que atravessa toda a trajetória de David Almeida: a ousadia. De motorista e entregador de sopa a deputado estadual; de parlamentar a governador interino em 2017; de figura periférica a prefeito eleito em 2020 sem o respaldo dos grandes caciques locais — e reeleito posteriormente —, sua carreira foi construída à margem das estruturas tradicionais de poder. É um político que, reiteradamente, apostou no improvável.
Amazonino Mendes
No Amazonas, a história registra um paralelo inevitável com Amazonino Mendes, que deixou a Prefeitura de Manaus para disputar o governo do estado — e venceu, consolidando-se como uma das maiores forças políticas regionais. Mas a comparação encontra limites claros: Amazonino partiu no auge de sua popularidade, cercado por amplo apoio político. Almeida, ao contrário, parte em meio a desgaste e isolamento.
A onda do momento
O movimento de renúncia para disputar cargos mais altos não é exclusivo de Manaus. Em diferentes capitais, prefeitos avaliam ou já encaminham decisões semelhantes, como Romeu Zema (MG), João Campos (PE) e Dr. Furlan (AP), além de nomes cotados em Maceió, São Luís, Boa Vista e Vitória.
No plano estadual, governadores como Eduardo Leite (RS), Renato Casagrande (ES) e Ronaldo Caiado (GO) também figuram no radar de movimentos semelhantes. Trata-se de uma engrenagem conhecida da política brasileira, regida por prazos eleitorais e cálculos de poder.
Mas, em Manaus, o gesto ganha contornos mais dramáticos. Não é apenas mais uma renúncia dentro de um ciclo político previsível. É a decisão de abandonar o comando da capital amazônica em um momento crítico, sem base sólida de apoio e sob forte contestação popular.
David Almeida entra hoje para a história política do Amazonas não necessariamente pelo resultado que alcançará a partir dessa decisão, mas pelo risco que decidiu assumir. Seu discurso diz que ele quer ser governador para ajudar Renato Júnior, o aliado que herdará a cadeira número 1 do poder municipal.
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Foto: reprodução/rede social
