Master abre rombo evangélico na campanha de Flávio Bolsonaro
Cruzamentos eleitorais indicam desgaste justamente no segmento que sustenta o bolsonarismo: os eleitores evangélicos
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 22/06/2026 às 15:27 | Atualizado em: 22/06/2026 às 15:27
A disputa presidencial de 2026 pode estar revelando uma mudança silenciosa no eleitorado mais estratégico da extrema direita brasileira.
Embora Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se mantenha estável na bolha extremista, os sinais de desgaste entre os evangélicos passaram a chamar atenção de analistas políticos após a repercussão dos áudios e revelações envolvendo o caso Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.
O alerta surge da comparação entre levantamentos realizados antes e depois da crise.
Em março, pesquisa Datafolha mostrava um cenário extremamente favorável ao filho de Bolsonaro entre os evangélicos.
O senador aparecia com cerca do dobro das intenções de voto de Lula nesse segmento, consolidando-se como herdeiro natural da base religiosa construída pelo pai ao longo dos últimos anos.
Naquele momento, o levantamento apontava o bolsonarista próximo da metade das preferências entre os evangélicos, enquanto Lula permanecia próximo de um quarto desse eleitorado.
O desempenho era considerado decisivo porque os evangélicos representam um dos grupos mais organizados e fiéis do campo conservador, funcionando como núcleo duro da campanha bolsonarista.
Leia mais
Master e apoio aos EUA derrubam simpatia de evangélicos a Flávio Bolsonaro
Mudança de trajetória
A situação começou a mudar após a divulgação das notícias envolvendo as conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada em junho apontou que o senador perdeu nove pontos percentuais entre os evangélicos, enquanto Lula avançou sete pontos no mesmo segmento.
Segundo o levantamento, o presidente passou de 24% para 31% das intenções de voto entre os eleitores evangélicos, reduzindo significativamente a distância que separava os dois adversários.
O movimento ocorreu justamente após semanas de repercussão nacional das informações relacionadas ao financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro e às investigações envolvendo o banco Master.
Embora nenhuma pesquisa permita afirmar uma relação direta de causa e efeito, a coincidência temporal entre a divulgação do caso e a queda registrada pela Quaest transformou o eleitorado evangélico em um dos principais pontos de observação da campanha.
Datafolha mostra resistência nacional
O aspecto mais curioso do quadro eleitoral é que o desgaste entre evangélicos ainda não provocou um colapso total da candidatura da extrema direita no agregado nacional.
A pesquisa Datafolha divulgada no final da semana passada mostra Lula liderando um eventual segundo turno por 47% a 43%, repetindo praticamente o cenário observado no mês anterior. No primeiro turno, Lula aparece com 41% das intenções de voto, contra 31% do senador do PL.
Os números sugerem que Flávio conseguiu preservar parte de seu eleitorado geral mesmo após a crise.
No entanto, para estrategistas de campanha, o dado mais relevante não está no placar nacional, mas no comportamento dos evangélicos.
Leia mais
Lula mantém 10 pontos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro, aponta Datafolha
O coração da candidatura
Desde o lançamento de sua pré-candidatura, Flávio Bolsonaro investiu fortemente na aproximação com lideranças religiosas, ampliando laços com diferentes denominações evangélicas e buscando reproduzir a conexão construída pelo pai com esse segmento.
Por isso, qualquer erosão nesse eleitorado tem peso político superior ao de oscilações registradas em outros grupos.
Enquanto Lula dispõe de maior capacidade de compensação em segmentos como católicos, beneficiários de programas sociais e parte do eleitorado do Nordeste, a candidatura de Flávio Bolsonaro depende fortemente da manutenção de sua vantagem entre os evangélicos para sustentar competitividade nacional.
É justamente essa base que apresentou os primeiros sinais concretos de desgaste após a repercussão do caso Master.
Sinal para outubro
A principal conclusão dos levantamentos não é que Flávio Bolsonaro deixou de ser competitivo. Pelo contrário. As pesquisas mostram que o senador continua ocupando o patamar dos 30% e permanece como principal adversário de Lula no campo da direita.
O dado politicamente relevante está em outro lugar: pela primeira vez desde o início da pré-campanha, surgiram evidências de enfraquecimento justamente no eleitorado que mais resistia aos avanços de Lula.
Se essa tendência será passageira ou o início de uma mudança mais profunda no comportamento do voto evangélico é uma das questões que devem marcar os próximos meses da corrida presidencial.
Referências que valem a leitura
Datafolha: Flávio Bolsonaro tem o dobro de Lula entre evangélicos — Folha de S.Paulo
Quaest: Flávio cai nove pontos e Lula sobe sete entre evangélicos — Folha de S.Paulo
Reuters: Lula mantém vantagem sobre Flávio Bolsonaro em pesquisa Datafolha
Foto: gerada por IA
