Nova eleição na ALE-AM reabre disputa e pode mudar equilíbrio de forças

Decisão do STF não apenas anula a solução construída após saída de Cidade, mas devolve aos deputados a escolha de novo presidente.

Nova eleição na ALE-AM reabre disputa e pode mudar equilíbrio de forças

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 11/07/2026 às 08:32 | Atualizado em: 11/07/2026 às 08:32

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu os efeitos da sucessão na mesa diretora da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) e determinou a realização de uma nova eleição, produz um efeito político que vai muito além da troca de nomes no comando da cada.

Ela reabre uma disputa que, na prática, havia sido encerrada por um acordo interno costurado no momento da posse de Roberto Cidade (União Brasil) como governador do estado.

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Relembre o lance

Quando Wilson Lima (União Brasil) e Tadeu de Souza (PP) renunciaram simultaneamente aos cargos de governador e vice-governador, Cidade deixou a presidência da ALE-AM para assumir o Executivo.

A sucessão no Legislativo, naquele momento, em abril deste ano, passou a ser discutida entre três nomes ligados ao grupo governista: Adjuto Afonso (União Brasil), vice-presidente da casa e sucessor natural; Carlinhos Bessa (União Brasil), considerado o nome de preferência de Cidade; e Felipe Souza (Podemos), deputado que reunia simpatia em diferentes correntes da ALE.

Ao final das articulações, prevaleceu a solução mais confortável para o momento político: Adjuto Afonso permaneceu no comando.

A decisão evitou uma disputa aberta entre parlamentares do mesmo grupo e preservou a unidade da base do novo governador.

A determinação do STF, entretanto, altera completamente esse ambiente.

Se antes a prioridade era garantir estabilidade institucional durante a transição entre os poderes, agora a eleição ocorrerá em um cenário político inteiramente diferente.

O Amazonas vive uma pré-campanha ao governo marcada pela existência de quatro grandes blocos políticos — liderados por Cidade, Omar Aziz (PSD), David Almeida (Avante) e Maria do Carmo (PL).

O detalhe é que todos eles, por seus partidos, têm representação dentro da ALE.

Esse novo quadro faz com que a futura eleição da mesa diretora deixe de ser apenas uma sucessão administrativa e passe a refletir a correlação de forças existente entre os grupos políticos que disputarão o governo do estado.

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Cidade mantém força

Apesar disso, a matemática da casa continua favorecendo o campo político de Cidade.

Os partidos que integram sua base, principalmente União Brasil e Podemos, concentram o maior número de parlamentares.

Já os grupos ligados a Aziz, Almeida e Maria do Carmo possuem bancadas relevantes, mas, isoladamente, não alcançam maioria suficiente para impor um candidato próprio.

Isso significa que, neste momento, a disputa tende a continuar concentrada entre nomes do próprio grupo governista.

O diferencial está justamente no perfil de cada um deles.

Enquanto Afonso representa a continuidade do acordo político firmado durante a transição para o Governo do Estado, Bessa aparece identificado como o nome mais próximo do governador.

Diálogo, pragmatismo e independência

Felipe Souza, por sua vez, surge em outra posição.

Nos bastidores da ALE, seu nome é apontado como o parlamentar que reúne maior capacidade de dialogar com diferentes bancadas, inclusive entre deputados que integram grupos políticos adversários na sucessão estadual.

Essa característica pode ganhar peso justamente porque a nova eleição devolve aos deputados a liberdade para reavaliar a escolha feita meses atrás.

Na prática, o STF retirou do tabuleiro uma solução construída em circunstâncias excepcionais e devolveu ao plenário da assembleia a possibilidade de fazer uma escolha baseada exclusivamente na atual configuração política da casa.

Mais do que escolher um presidente, os deputados terão a oportunidade de definir qual perfil desejam para comandar o Legislativo em um dos períodos politicamente mais delicados da história recente do Amazonas.

A tendência é que a discussão deixe de girar apenas em torno da proximidade dos candidatos com o governador e passe a considerar outro atributo: a capacidade de exercer uma presidência que preserve a autonomia institucional da assembleia diante do Executivo, independentemente de quem vença as eleições estaduais.

Desfecho pode ser imprevisível

Se essa percepção prevalecer entre os parlamentares, a nova eleição poderá produzir um resultado diferente daquele construído durante a transição de governo.

A decisão do STF, portanto, não apenas determina uma nova votação. Ela recoloca em aberto uma disputa que parecia encerrada e devolve aos 24 deputados estaduais a oportunidade de redefinir o comando político da Assembleia Legislativa em um momento em que o parlamento tende a assumir papel ainda mais estratégico na sucessão estadual.

Foto: Matheus Rodrigues/ALE-AM