Fé e resistência: O Mastro de São Benedito volta a balançar Barreirinha
A tradicional Derrubada do Mastro na Fazenda São Joaquim reafirma a identidade cultural de Barreirinha através da devoção a São Benedito.
Neuton Corrêa, da Redação do BNC AMAZONAS
Publicado em: 14/04/2026 às 16:14 | Atualizado em: 14/04/2026 às 16:19
Nas primeiras luzes do amanhecer na Fazenda São Joaquim, em Barreirinha, no dia 29 de novembro de 2026, o ar já não será o mesmo. Há uma eletricidade mística que percorrerá o terreno do saudoso “Bode”, agora sob a batuta e o patrocínio fervoroso do empresário José Roberto, o filho da terra de Thiago de Mello que mora em Parintins e que foi rebatizado como o nome de Rodrigo.
É Rodrigo, um filho de quilombola, que começa a divulgar e a organizar os festejos. Porque, na última semana de novembro, centenas de fiéis vão se reunir para o rito que encerra um ciclo de devoção: a Derrubada do Mastro de São Benedito.
Embora o calendário oficial da Igreja Católica por vezes olhe com reserva para a celebração — que por mais de uma década precisa ainda se camuflar sob o nome de “Festa do Marujo” para seguir existindo —, para o povo, o nome pouco importa diante da imagem do Santo Preto. A resistência da instituição não arrefeceu a fé; pelo contrário, transformou a festa em um bastião da identidade cultural barreirinhense.
O que é a “Derrubada do Mastro”?
Para quem vê de fora, pode parecer apenas o fim de um arraial. Mas, no interior do Brasil, a derrubada (ou cortada) do mastro é um ritual de despedida e renovação.
Nesse caso, o mastro é o eixo que liga o sagrado ao profano. Durante os dias de festa, ele sustenta a bandeira do santo e ofertas (frutas, bebidas e prêmios). No festa do Bode, oito mastros são erguidos e derrubados todos anos.
Este ano, a derrubarão acontecerá no dia 29 de novembro, um domingo.
O ato simboliza o cumprimento do dever espiritual. Os fiéis disputam os ramos e as ofertas, acreditando que eles carregam a benção acumulada durante a festividade.
Na promessa, na maioria das vezes, o mastro é erguido por conta de um devoto, em retorno à graça alcançada. Alguém que alcançou uma graça “levanta” o mastro em gratidão; ao final, ele é derrubado para que as sementes daquela fé se espalhem entre a comunidade.
Raízes: Da Bahia ao Amazonas
Essa tradição é um amálgama cultural. Podem-se encontrar ecos profundos na Bahia, com a famosa “Puxada do Mastro” em Olivença, e no Pará, onde o mastro é o protagonista absoluto de festas como o Sairé e a Marujada de Bragança.
No Amazonas, embora menos divulgada na capital, a tradição sobrevive na resistência de figuras como a saudosa Mãe Bena, no bairro Cidade Nova. Lá, no dia 20 de janeiro, o mastro cai em honra a São Sebastião, unindo a cosmologia dos terreiros à devoção cristã, provando que a fé popular não cabe em molduras institucionais.
Entre o sagrado e o profano: Por que a resistência da Igreja?
A tensão entre a Igreja e a festa de Barreirinha nasce do caráter autônomo dessas celebrações. Por serem organizadas por leigos e financiadas por patronos da comunidade, como o próprio Rodrigo (José Roberto), elas fogem do controle litúrgico.
“A igreja muitas vezes não reconhece o mastro como parte do rito oficial por seu sincretismo e pelas festas de ‘terreiro’ que o circundam, onde a batida do tambor e a alegria do marujo se misturam à oração,” explica um pesquisador local.
No entanto, a sociedade vê o evento como um ato de pertencimento. Em Barreirinha, a festa de São Benedito é onde o cidadão se reconhece. É o momento em que a promessa individual se torna um patrimônio coletivo.
Ao cair do mastro, em novembro não vemos apenas madeira tocando o solo; veremos a manutenção de uma chama que nem o tempo, nem a burocracia religiosa, conseguiram apagar.
Foto: Divulgação
