Era só sobre livro, mas Simão e Ronaldo se encontraram, acidentalmente

O Deus de Simão Assayag, como o de Spinoza, está nas pequenas coisas. E nas toadas inspiradas

Era só sobre livro, mas Simão e Ronaldo se encontraram, acidentalmente

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas em Parintins

Publicado em: 25/06/2026 às 05:47 | Atualizado em: 25/06/2026 às 07:38

A entrevista tinha um roteiro simples. O assunto seria apenas “Diletante – Crônicas & Textos”, livro lançado por Simão Assayag na noite deste São João (24), em sua casa, às margens de um dos lagos que abraçam Parintins.

Mas bastou Ronaldo Barbosa aparecer para que a conversa deixasse as páginas da literatura e atravessasse três décadas da história do boi Caprichoso.

Foi como se as crônicas recém-publicadas abrissem espaço para outras narrativas, aquelas que nunca deixaram de morar na memória de seus autores. Vieram lembranças da criação de “Amazônia, Catedral Verde”, de “Amazônia Quaternária”, de “Gêne (O Apocalipse)”, das reuniões improvisadas, dos desafios de transformar conhecimento em espetáculo e da revolução estética que ajudou o Caprichoso a conquistar o tricampeonato entre 1994 e 1996.

No fim, a entrevista já não era apenas sobre um livro.

Era sobre inspiração.

Era sobre memória.

Era sobre criação.

“E a gente despreza as pequenas coisas”, resume Simão, ao explicar de onde nasce sua escrita.

Foi exatamente isso que aconteceu naquela conversa.

As crônicas que nasceram da vida

“Diletante – Crônicas & Textos” reúne escritos produzidos ao longo de mais de três décadas.

Há textos publicados em jornais, revistas, anotações espalhadas em recortes de papel e arquivos guardados no celular. Simão conta que nunca foi um homem do computador. Muitas ideias surgiam ainda de madrugada e precisavam ser registradas imediatamente.

“Essas inspirações acontecem cinco horas da manhã. Se eu correr para pegar o computador, elas desaparecem.”

A pandemia acabou oferecendo o tempo necessário para organizar esse material.

O resultado é um livro povoado por personagens reais, tipos populares de Parintins, histórias do interior, causos bem-humorados, lembranças da infância, reflexões sobre preservação da Amazônia e textos que aproximam o cotidiano da espiritualidade.

Era só sobre livro, mas Simão e Ronaldo se encontraram, acidentalmente

Entre as histórias estão o vigia que dizia conhecer os sinais do tempo e dos seres encantados da floresta, episódios pitorescos do antigo Fórum de Justiça de Parintins, figuras folclóricas da cidade e pequenas observações do dia a dia transformadas em literatura.

Para Simão, Deus se manifesta justamente nesses detalhes.

“Tem um passarinho que me acorda todo dia. Eu não fico bravo. É Deus dizendo que está na hora de levantar. Os tucanos começam a comer o açaí e avisam que chegou a hora da colheita.”

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Quando uma toada nasce em meia hora

Foi exatamente ao falar dessas inspirações que Ronaldo Barbosa entrou naturalmente na conversa.

E imediatamente surgiu a lembrança de uma das toadas mais emblemáticas da história do Festival de Parintins.

“Amazônia, Catedral Verde”.

Segundo Simão, a letra apareceu inteira ao despertar, como se tivesse sido sonhada.

Sem querer perder a inspiração, escreveu tudo no verso de um talão de cheques.

Mais tarde atravessou de voadeira até a casa de Ronaldo.

“Olha isso aqui”, disse ao parceiro.

Ronaldo leu.

Pouco depois ligou avisando que a música já estava pronta.

“Cada palavra pedia uma nota”, recorda o compositor.

Entre letra e melodia, tudo ficou pronto em menos de meia hora.

Para Simão, não há outra explicação.

“É a mão de Deus.”

A neve caiu na Amazônia

As lembranças seguiram para 1997.

Lado a lado, os dois voltaram ao momento em que decidiram criar “Amazônia Quaternária”.

Ronaldo brinca que o conhecimento científico acabou permitindo algumas licenças poéticas.

“Como nem todo mundo entendia muito das eras geológicas, apareceu até Tiranossauro Rex e Pterodáctilo na arena.”

Simão completa lembrando outro detalhe marcante daquele espetáculo.

“Fizemos nevar na arena (risos).”

A ousadia ajudava a consolidar uma linguagem que colocava o Caprichoso muitos passos à frente do seu tempo.

A revolução que levou ao tricampeonato

A conversa também mergulhou nos bastidores da transformação artística iniciada em 1994.

Ronaldo fez questão de registrar que aquele grupo, formado por Simão Assayag, Juarez Lima (já falecido) e outros criadores, alterou profundamente a maneira de fazer boi.

“Hoje estão fazendo um documentário sobre 1996 porque ali mudou toda uma estrutura de alegoria, música, coreografia, conceito e apresentação.”

Simão explica que sua função era provocar os artistas.

Em vez de chegar com uma ordem pronta, preferia contar histórias.

Sentava para conversar.

Narrava uma lenda.

Descrevia uma imagem.

Quando percebia, Juarez Lima já estava desenhando e Ronaldo já começava a pensar na melodia.

Era desse processo coletivo que surgiam obras como “Amazonas Ayakamaé”.

“A gente era forçado a pesquisar. Os desafios fazem a humanidade crescer.”

Um livro que acabou contando outra história

Em seu discurso, no lançamento, Simão falou do livro.

Lembrou que “Diletante” nasceu durante a pandemia, período em que reuniu textos escritos ao longo de décadas.

Citou Shakespeare, Isaac Newton e outros criadores que produziram algumas de suas maiores obras durante períodos de isolamento.

Sorriu.

Agradeceu aos amigos.

E fez questão de mencionar Ronaldo Barbosa.

Talvez porque, naquela noite, tenha ficado evidente que suas crônicas e suas toadas nasceram exatamente do mesmo lugar.

Da capacidade de enxergar extraordinário naquilo que parece pequeno.

Nas primeiras horas da manhã.

No canto de um pássaro.

Na sombra de uma mangueira.

Ou numa conversa que era para ser apenas sobre um livro e terminou revisitando algumas das páginas mais bonitas da história do Festival de Parintins.

VÍDEO:

Fotos: BNC Amazonas