“Viva a cultura popular, viva o boi de Parintins”!
Aldenor Ferreira analisa o Festival de Parintins como expressão viva da cultura popular, onde ancestralidade, memória e criação coletiva fazem do boi-bumbá uma forma de arte e resistência.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 27/06/2026 às 00:10 | Atualizado em: 26/06/2026 às 11:24
A cultura popular de Parintins é uma das expressões mais autênticas da arte brasileira. Quando Guto Kawakami, Geovane Bastos e Adriano Aguiar escreveram, para o Boi Caprichoso, a toada “Viva a cultura popular”, sintetizaram em uma toada a própria essência do Festival de Parintins.
Eles traduziram em música aquilo que define o boi-bumbá: criação coletiva, ancestralidade, identidade e beleza popular. Hoje, quando a lógica do consumo tenta uniformizar tudo, defender essa cultura é também um ato de resistência.
Nesse contexto, falar de Parintins é reconhecer no Festival uma criação coletiva que atravessa gerações e se renova todos os anos na força criativa do Boi Garantido e do Boi Caprichoso, artífices de uma das mais belas e originais manifestações da cultura popular brasileira.
Cultura popular e indústria cultural
Theodor Adorno e Max Horkheimer mostraram como a indústria cultural transforma arte em mercadoria, repete fórmulas e organiza sensibilidades para o consumo.
Em alguma medida, Parintins também dialoga com essa lógica. Afinal, o festival cresceu, profissionalizou-se e passou a circular em escalas cada vez maiores. No entanto, sua força mais profunda não se explica pelo mercado.
A cultura popular de Parintins se sustenta em outra raiz. Ela nasceu das ruas, dos currais e dos terreiros da história. Nasceu da memória coletiva do povo negro, indígena e caboclo da Amazônia, que transformou experiência, sofrimento, festa e ancestralidade em linguagem estética. É justamente essa origem que distingue o boi-bumbá de uma simples mercadoria cultural.
Por isso, o Festival Folclórico de Parintins conserva algo raro: mesmo atravessado pelas dinâmicas contemporâneas do espetáculo, ele preserva uma potência criativa enraizada no território e na memória social.
Sofisticação sem perder suas raízes
Em Parintins, os bois constroem universos estéticos singulares. As toadas convertem memória em narrativa; as alegorias materializam mitos, conflitos e encantarias da Amazônia. Dessa forma, a cultura popular não se conserva pela repetição, mas pela capacidade de se reinventar sem romper com suas raízes.
O antropólogo Clifford Geertz ensinou que cultura é uma teia de significados construída pelas pessoas. Em Parintins, essa definição ganha forma concreta. Aliás, ganha cor, corpo e som.
O Boi Caprichoso e o Boi Garantido criaram, ao longo das décadas, um sistema artístico único. Não existe nada parecido no mundo. Enquanto muitos festivais apenas reproduzem tradições. Parintins, ao contrário, reinventa suas próprias tradições a cada ano.
Além disso, a riqueza estética impressiona. As toadas entrelaçam poesia, denúncia e memória. Nas alegorias, ferro, tecido, tinta e luz se convertem em imagens grandiosas do lendário amazônico, enquanto os corpos em movimento traduzem mitos, lutas e pertencimentos.
Dessa forma, como mencionado, a arte popular atinge alto grau de sofisticação sem perder suas raízes.
A aura do Festival
Walter Benjamin define a “aura” da obra de arte como aquilo que lhe confere singularidade, presença e irrepetibilidade. Em Parintins, essa aura permanece viva porque o Festival se realiza sempre como acontecimento único: a apresentação existe no instante, diante do público, carregada de emoção, tensão e encantamento.
Essa força do irrepetível não nasce apenas do espetáculo, mas da memória e das ancestralidades que ele mobiliza. É justamente aí que a cultura popular de Parintins revela sua profundidade.
Os bois incorporam matrizes indígenas e negras não como ornamento, mas como fundamento de sua linguagem estética e narrativa. Ao colocá-las no centro da arena, fazem emergir memórias, cosmologias e experiências históricas que sustentam a formação da Amazônia, mas que por muito tempo permaneceram silenciadas ou subordinadas nos relatos oficiais.
Stuart Hall compreende identidade como processo, nunca como essência fixa. Parintins confirma isso todos os anos. A tradição não se limita a conservar o passado; ela o recria, o desloca e o projeta para o futuro. É assim que a cultura popular permanece viva: movendo-se sem perder suas raízes.
Considerações finais
Concluo, portanto, que reduzir Parintins a uma simples disputa folclórica seria um erro. O Festival é, antes de tudo, um grande laboratório de criação estética. Além disso, movimenta a economia, fortalece laços sociais e reafirma identidades coletivas.
Sobretudo, o Festival de Parintins mostra algo essencial: o povo não apenas consome cultura. O povo cria cultura. E, quando cria, transforma memória, identidade e ancestralidade em beleza e grandeza.
Enquanto o mercado tende a uniformizar a cultura, Parintins reafirma sua singularidade. Se a indústria cultural insiste na repetição, o boi responde com invenção. E, num tempo em que muitos se afastam de suas raízes, o Festival as transforma em arte, espetáculo e permanência.
E é justamente por isso que, neste fim de junho, quando Parintins pulsa no compasso dos tambores e na força de sua arena, não vemos apenas uma competição. Vemos arte viva, memória viva e um povo que faz de sua própria história espetáculo.
Por isso, como consagra a toada: “viva a cultura popular, viva o boi de Parintins”.
O autor é sociólogo*.
Arte: Gilmal.
