A segunda noite do festival de Parintins: entre espetáculo e estratégia
Boi azul investe em tecnologia e linguagem cênica, enquanto o vermelho aposta na força comunitária, memória e organização.
Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas em Parintins
Publicado em: 28/06/2026 às 11:16 | Atualizado em: 28/06/2026 às 11:23
Na segunda noite do Festival de Parintins 2026, o boi Caprichoso apresentou o espetáculo “O Brinquedo Ancestral Canta: Amazônia – O Chão da Vida”, reafirmando sua busca por uma linguagem cada vez mais sofisticada e tecnologicamente mediada. Ao mesmo tempo, o boi Garantido, com “Parintins, Portal da Diversidade”, apostou na força de sua identidade comunitária e na potência coletiva como eixo dramatúrgico.
A arena convertida em palco
O Caprichoso radicaliza uma escolha estética ao utilizar o módulo elevado, que posicionam os itens quase à altura dos jurados. Não é apenas solução cenográfica, trata-se de uma estratégia deliberada de linguagem. Ao reduzir a arena e aproximar o espetáculo da lógica frontal do palco italiano, o boi azul parece dialogar diretamente com um corpo de jurados formado por profissionais cujos ofícios ocorrem em palcos e com o teatro formal.
O resultado é ambivalente. De um lado, há ganho em recorte cênico, controle visual e precisão performática. De outro, observa-se uma compressão do espaço ritual da arena, que historicamente se construiu na expansão e no deslocamento.

Ciência e tecnologia
As fantasias do Caprichoso reafirmam seu protagonismo técnico no festival. Não se trata apenas de exuberância visual, mas de um uso consciente de tecnologia aplicada ao figurino. O destaque vai para a sinhazinha, cuja cabeça inspirada em um beija-flor rompe com o tradicional.
A Marujada de Guerra, com seu efeito verde neon nos chapéus, cria uma atmosfera quase bioluminescente, evocando a floresta noturna. Já a cunhã-poranga radicaliza a ideia de hibridismo: sua fantasia propõe um ingeramento em animal, alternando entre onça preta e onça pintada.

Da ópera ao musical
Do ponto de vista estrutural, o Caprichoso acentua um deslocamento significativo: abandona, ainda que parcialmente, a estrutura da chamada “ópera amazônica” em direção a um formato de musical comercial. A sincronia rigorosa entre efeitos pirotécnicos, iluminação e execução das toadas evidencia essa transição.
Por um lado, essa escolha amplia o impacto imediato e o apelo espetacular, por outro, altera a ritualística que tradicionalmente caracteriza o boi-bumbá.
O espetáculo
O momento mais ovacionado da apresentação do Caprichoso foi a entrada aérea da porta-estandarte, conduzida por uma arara alegórica trazida do céu. O uso recorrente de guindastes ao longo da noite reforça a verticalização do espetáculo, privilegiando o impacto visual imediato por parte do boi azul.
A questão em torno da valorização do uso do guindaste como recurso cênico é que isso pode produzir uma dependência do aparato técnico em detrimento da espontaneidade do corpo brincante no chão para provocar a catarse artística.

Garantido: memória, comunidade e energia coletiva
Em contraste, o Garantido estrutura sua apresentação a partir de outro eixo: a centralidade da comunidade como fonte de energia estética e simbólica. Ao abrir a noite com Quilombo da Baixa, o boi vermelho usa uma estratégia recorrente: falar de si para se empoderar e crescer na arena.
Esse movimento não é apenas narrativo, mas político: ao evocar suas origens, o Garantido reafirma sua relação com a base popular, convertendo memória em potência.
Coreografia e corporeidade
A perfeita execução da coreografia da toada Quilombo da Baixa pelo balé folclórico da Bahia foi um dos momentos mais consistentes da noite. A precisão técnica aliada à intensidade dos movimentos sustentou-se em todo o ato. Aqui, o Garantido parece operar na lógica inversa do Caprichoso: enquanto um aposta na máquina, o outro aposta no corpo.

Entre passado e presente
Ambos os bois recorrem a remixes de toadas clássicas, especialmente da chamada “década de ouro”. Trata-se de uma estratégia eficaz para ativar uma memória afetiva capaz de garantir catarse imediata.
O Garantido, no entanto, equilibra melhor essa equação ao manter em primeiro plano as toadas do álbum exitoso de 2026.
Teatralidade
O amo do boi do Garantido emerge como um dos destaques. As trocas de figurino não são meros recursos visuais, mas dispositivos de construção da narrativa. Ao incorporar o figurino de Paulinho Faria, seu tio, o amo transformou o seu corpo em memória viva.

Organização e sofisticação alegórica
Talvez o dado mais significativo da apresentação do Garantido seja a sua organização. A chuva que antecedeu o ritual indígena, em outros tempos desestabilizaria o boi vermelho. No entanto, na noite de ontem, a intempérie não causou prejuízos, evidenciando planejamento e controle do tempo e dos recursos.
As alegorias, por sua vez, atingem um patamar elevado de acabamento e mobilidade. A superação das expressões faciais mais travadas revela um avanço técnico importante. A alegoria de Kamara, a onça mítica, destaca-se como síntese desse progresso: visualmente impactante, simbolicamente consistente e tecnicamente refinada.

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Fotos: BNC Amazonas
