Deus não é fiador de fraude financeira

Plínio Coêlho analisa como o uso político da fé se transforma em blindagem moral para relações suspeitas entre poder, dinheiro e religião no Brasil.

Uso político da fé e poder financeiro

Por Plinio Cesar Coêlho*

Publicado em: 29/06/2026 às 07:00 | Atualizado em: 28/06/2026 às 12:42

O problema não é Deus. O problema é quem usa Deus como escudo quando o assunto é lavagem de dinheiro, poder, banco quebrado, “filme” milionário e suspeita de fraude.

O problema não é a fé do povo. O problema é a esperteza de quem tenta transformar linguagem religiosa em anestesia moral para esconder relações políticas que precisam ser explicadas.

No áudio de Flávio Bolsonaro divulgado pela imprensa, o senador, ao tratar das dificuldades para viabilizar o “filme” Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, afirma a Daniel Vorcaro: “não sei como é que vai ser daqui pra frente, como é que isso tudo vai acabar, mas tá na mão de Deus aí”. Ao final, despede-se: “Fica com Deus, cara”.

É aí que a pergunta precisa ser feita com todas as letras: que Deus é esse?

Quando Deus entra no jogo político

É o Deus que apoia maracutaia? É o Deus que abençoa treta financeira? É o Deus que fecha os olhos para fraude? É o Deus que protege banqueiro miliciano enquanto gente comum corre o risco de perder economias guardadas a vida inteira? Claro que não.

Deus não é fiador de operação suspeita. Deus não é avalista de banco quebrado. Deus não é sócio oculto de banqueiro. Deus não é carimbo moral para projeto político de família. E o nome de Deus não pode ser usado como perfume espiritual para disfarçar o mau cheiro da promiscuidade entre política, dinheiro e sistema financeiro.

Flávio Bolsonaro negou irregularidade e afirmou que se tratava de patrocínio privado para um filme privado. Essa é a versão dele. Mas o fato político permanece: o senador pediu ajuda financeira milionária a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição envolvida em uma das maiores crises financeiras recentes do país. E, no meio dessa conversa, aparece Deus.

A questão não é religiosa. É política. Mais grave ainda: é moral.

A fé como blindagem do poder

Porque, no Brasil, uma parte da política aprendeu a usar Deus como senha de pureza. Fala em Deus para comover. Fala em Deus para blindar. Fala em Deus para criar identificação automática com milhões de evangélicos sinceros, trabalhadores, honestos, que levam sua fé a sério.

O problema é que essa fé, muitas vezes, é sequestrada por políticos que usam Bíblia na mão e negócios nebulosos na outra.

O caso Banco Master não é pequeno. O colapso do banco expôs rombos bilionários, pressionou o Fundo Garantidor de Créditos e atingiu diretamente a confiança de quem aplicou dinheiro acreditando na solidez do sistema financeiro.

O cidadão comum olha para isso e pergunta: quem paga essa conta? Quem protege quem guardou dinheiro durante anos? Quem responde pela insegurança de quem tinha valores acima do limite garantido pelo FGC?

Enquanto isso, no andar de cima, circulam banqueiros, políticos, cinebiografias milionárias, jantares, patrocínios e áudios com despedida religiosa. Para o povo, incerteza. Para os poderosos, “fica com Deus”.

É essa hipocrisia que precisa ser denunciada.

O deus de conveniência dos poderosos

Não se trata de atacar evangélicos. Pelo contrário. Trata-se de defender a fé dos evangélicos sinceros contra o uso oportunista da religião. A fé não pode servir de cortina de fumaça. O nome de Deus não pode ser usado para confundir a cabeça do povo. E nenhuma liderança política deveria transformar religião em abrigo retórico quando está diante de relações financeiras que exigem explicação pública.

O Deus da justiça não apoia fraude. O Deus da verdade não protege mentira. O Deus dos pobres não compactua com banqueiro que deixa trabalhador e pequeno investidor em desespero. O Deus da ética não serve para lavar reputação de ninguém.

Por isso, a frase “tá na mão de Deus aí” precisa ser lida no seu contexto. Não como oração. Não como gesto de espiritualidade. Mas como sintoma de uma política que aprendeu a misturar fé, dinheiro e poder para tentar tornar aceitável o que deveria causar indignação.

A pergunta continua de pé: que Deus é esse?

Porque o Deus da fé popular não pode ser confundido com o deus de conveniência dos poderosos. O primeiro consola, orienta e exige justiça. O segundo é apenas um recurso de marketing político. Um Deus invocado para proteger negócios, blindar famílias e acalmar consciências.

Esse segundo deus não é Deus. É álibi.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

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