O privilégio da singularidade
Flávio Lauria analisa a nova velhice e defende uma visão mais ampla, ativa e contemporânea sobre o envelhecimento e a longevidade.
Por Flávio Lauria*
Publicado em: 09/07/2026 às 08:00 | Atualizado em: 08/07/2026 às 22:59
Caros leitores, sou um privilegiado. Completo nesta sexta-feira, 10 de julho, mais um ano de existência. Aproveito este espaço para enaltecer a singularidade de pertencer a uma geração que pode visualizar, talvez pela primeira vez na história da humanidade, uma ampla paisagem cronológica em três momentos distintos, mas complementares.
Uma geração que enxerga, com instigante nitidez, o tempo passado, os princípios de tudo e o desenrolar da História, desde a incompreensível criação cósmica do Big Bang. Assiste, em tempo real, quase sem subterfúgios, aos causos e aos eventos do presente, tristes ou alegres, próximos ou distantes.
É capaz de prospectar o futuro para construir cenários e avaliar – não sem temor e nostalgia – que haverá aqui um fim, mas também outros começos e outras Terras.
Os novos velhos
Assim, septuagenários diferentemente dos raros longevos, de outras existências – enganados pelos conhecimentos limitados, preconceituosos e obscurantistas, de suas épocas – tem uma visão clara e consciente do seu momento: concatenada, fundamentada e dinâmica.
De igual forma, mesmo no ambiente temporal mais curto da genealogia de sua estirpe, o septuagenário, espiando para trás, identifica, com alguma intimidade, seus ancestrais, desde bisavós, ou tetravós, enquanto, voltando-se para a frente, encontra a descendência de netos.
Acumula, de relance, uma memória familiar de quatro a cinco gerações. Esse rico e buliçoso ambiente de tantas dimensões do tempo, captado e compreendido, criticamente, pelos longevos, vem moldando os novos velhos, homens e mulheres. Isso é novo e se soma a tantas outras revoluções segmentadas, que mexem com a cabeça de todo mundo…
O simbolismo do idoso, ou de melhor idade, na figura estilizada do simpático ancião alquebrado, apoiado na bengala, além do desenho preconceituoso, está na contramão de uma moderna visão da velhice. Não minimizo a velhice. É a benfazeja condição do laborioso processo de viver e constitui uma atividade de alto risco…
O preconceito institucionalizado
Mas, por ignorância, má fé ou fatalismo, são equivocados os conceitos que associam a velhice, apressadamente, à doença, à decrepitude, à alienação, ao isolamento e pior: às disfunções.
No Brasil, o Estatuto do Idoso, ressalvada sua boa intenção e meia dúzia de mandamentos oportunos e apropriados, é, no todo, um preconceituoso e hipócrita manual classificatório que separa, utopicamente, o idoso (acima de 60 anos) do restante dos indivíduos considerados normais.
Num mundo cuja população freia seu crescimento, tende à maior longevidade, educa-se melhor e interage com a velocidade da web e da IA, impõe-se interpretar e tratar, com prontidão e competência, as profundas mudanças decorrentes desse inusitado processo.
O autor é doutor em Administração Pública.*
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
