Carta da madrugada

Robério Braga resgata um episódio pouco conhecido da história do Amazonas: a carta escrita por Álvaro Maia na madrugada da queda de Getúlio Vargas, em outubro de 1945.

Perfil de Álvaro Maia

Por Robério Braga*

 

Publicado em: 04/07/2026 às 11:52 | Atualizado em: 04/07/2026 às 11:52

Corria o ano de 1945. Manaus estava em ritmo de campanha política para as eleições de 2 de dezembro, nas quais deveriam ser eleitos o presidente da República, os governadores, deputados e senadores.

Os partidos UDN, PSD e PTB eram os principais grupos da ocasião, os dois últimos gravitando em torno do presidente Getulio Vargas que, vez em quando, tomava posições ambíguas em relação à realização do pleito e à não interferência federal no processo eleitoral.

A cúpula militar, leia-se os generais Góes Monteiro e Gaspart Dutra, cabreiros com Vargas diante do passado de manobras que o mantinham no governo, desde 1930, providenciou uma reação de vários generais e almirantes, impondo a deposição de Vargas em golpe que, pode-se dizer, foi dentro do golpe do Estado Novo que eles haviam apoiado.

A primeira providência foi notificar Vargas, estabelecendo condições para que continuasse no cargo durante as eleições, às quais ele respondeu aquiescendo a duas delas, mas, ambiguamente, recusou o afastamento dos interventores federais (homens de sua inteiríssima confiança) e permitir que os governos estaduais passassem para os presidentes dos tribunais de justiça dos estados.

Diante disso, os militares deram o xeque-mate, obrigando Vargas a renunciar ao cargo, a meia noite de 29 de outubro de 1945 e, ato contínuo, as duas horas da madrugada do dia 30, deram posse ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro José Linhares, no cargo de presidente da República, o qual jurou fidelidade aos “princípios” que Vargas negara e os generais garantiriam a ordem pública e o governo.

A carta escrita na madrugada

As notícias dessa crise corriam desde dias antes pelas emissoras de rádio. Em Manaus, a informação chegava por emissora pública e sistema privado, instalado no Palácio Rio Negro, diretamente do Palácio do Catete.

Álvaro Maia, o interventor federal, estava mais ou menos a par dos acontecimentos, mas sem confirmação oficial, quando foi acordado, à meia-noite do dia 29, por um jornalista do “Jornal do Commercio”, indagando se ele passaria o cargo e a quem?

De pijamas, tomado de surpresa pelo desfecho da crise ainda não confirmada pelo Catete nem pelos caminhos oficiais, Álvaro redigiu uma carta do próprio punho, na madrugada, para tranquilizar o povo amazonense, a qual foi publicada no jornal do dia 30: “o povo deve aguardar os acontecimentos com serenidade; nada recebi oficialmente, até agora, meia-noite. Quanto à situação administrativa do Estado espero instruções para serem rigorosamente cumpridas. Aqui estou para entregar o governo com a tranquilidade de sempre”.

Álvaro Maia diante da mudança

Falava com autoridade e experiência. Interventor em 1930, afastado em 1931, deputado constituinte federal em 1934, governador eleito em 1935, interventor de 1937 a 1945, conhecia os meandros da política na qual conviveu de forma digna e honrada – apesar dos ataques horrendos dos seus opositores –, até a sua morte em 1969 como senador da República.

Mesmo deposto da presidência, Vargas permaneceu como fantasma assustando os áulicos do novo poder e ameaçando, sem falar, os interesses dos que o depuseram que, ao final, tiveram o seu apoio, por meio do PTB, para vencer as eleições presidenciais com Eurico Gaspar Dutra.

Infelizmente, não se tem conhecimento da sobrevivência documental da preciosa “carta da madrugada” manuscrita por Álvaro Maia naquele momento histórico.

O autor é membro Academia Amazonense de Letras.*

Foto: Arquivo pessoal.