O império das armas, do dólar e das tarifas
Plinio Coêlho argumenta que as tarifas impostas por Donald Trump ao Brasil vão além do comércio e representam um instrumento histórico de pressão política e disputa pela soberania nacional.
Por Plinio Cesar Coêlho*
Publicado em: 20/07/2026 às 11:14 | Atualizado em: 20/07/2026 às 11:14
As tarifas impostas pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros não constituem apenas uma medida comercial. Elas fazem parte de uma política histórica pela qual os Estados Unidos utilizam seu poder econômico, financeiro, militar e tecnológico para pressionar países que não se submetem integralmente aos seus interesses.
A justificativa econômica é frágil. Os Estados Unidos mantêm relações comerciais amplamente favoráveis com o Brasil, especialmente quando se consideram bens e serviços. Não se trata, portanto, de corrigir uma suposta exploração comercial praticada pelo Brasil contra os norte-americanos. A tarifa funciona, sobretudo, como instrumento de coerção política.
Essa prática não começou com Trump. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos construíram uma ordem internacional baseada em sua superioridade. As bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945, anunciaram ao mundo o alcance de seu poder militar. Simultaneamente, a organização econômica estabelecida em Bretton Woods colocou o dólar no centro das relações monetárias internacionais.
O dólar deixou de ser apenas a moeda dos Estados Unidos. Tornou-se uma arma geopolítica. Como grande parte do comércio mundial, das reservas internacionais e dos pagamentos bancários depende da moeda norte-americana, Washington passou a ter condições de sancionar governos, bloquear empresas, congelar recursos e impedir transações realizadas até mesmo fora de seu território.
O dólar como instrumento de poder
Também foram criados organismos multilaterais destinados, em princípio, a disciplinar as relações internacionais. Entretanto, a Organização das Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio nunca estiveram completamente livres da influência das grandes potências.
Quando essas instituições atendem aos interesses de Washington, são apresentadas como pilares da legalidade internacional. Quando contrariam suas decisões, são ignoradas, bloqueadas ou esvaziadas.
Cuba representa um dos exemplos mais duradouros. Há mais de seis décadas, o povo cubano sofre as consequências de um bloqueio econômico condenado repetidamente pela maioria dos países integrantes da ONU.
A intenção nunca foi somente pressionar o governo cubano, mas criar dificuldades materiais para a população e, por meio do sofrimento econômico, produzir uma mudança política.
O mesmo método aparece nas sanções contra o Irã e no apoio político, financeiro e militar oferecido a Israel, mesmo diante da devastação da população palestina.
Marco Rubio, hoje uma das figuras centrais da política externa trumpista, representa essa concepção segundo a qual os Estados Unidos teriam o direito de determinar quais governos podem existir, quais países podem comerciar e quais povos devem ser punidos por suas escolhas.
A dimensão política das tarifas
O Brasil agora enfrenta uma versão tarifária dessa política imperial. O contexto político não pode ser desprezado. Trump e o bolsonarismo compartilham identidade ideológica, métodos políticos e um discurso autoritário semelhante. Integrantes da família Bolsonaro procuraram abertamente apoio nos Estados Unidos para pressionar instituições brasileiras e influenciar o cenário político nacional.
Não se pode afirmar, sem provas, que exista um acordo formal para devolver o governo brasileiro à família Bolsonaro. No entanto, é evidente a convergência entre os interesses do trumpismo e os do bolsonarismo. A tarifa surge, assim, envolvida em uma disputa que ultrapassa o comércio e alcança a soberania política brasileira.
Flávio Bolsonaro, apresentado como uma das alternativas eleitorais desse campo político, foi denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro no caso conhecido como “rachadinha”. Ele não foi condenado, e o processo acabou enfraquecido depois da anulação de provas e de sucessivas decisões judiciais.
Portanto, é incorreto tratá-lo como condenado, mas também é desonesto afirmar que todas as acusações foram examinadas profundamente e consideradas inexistentes.
Diante disso, causa estranheza que antigos representantes da diplomacia brasileira afirmem que o país “não tem cacife” para enfrentar os Estados Unidos. É evidente que não existe igualdade de força econômica ou militar entre as duas nações. Mas soberania não pode ser um direito reservado apenas às potências.
Soberania exige negociação, não submissão
O Brasil deve agir com prudência, inteligência e capacidade de negociação. Isso não significa ajoelhar-se. Significa utilizar mecanismos de reciprocidade, proteger os setores atingidos, diversificar mercados e ampliar relações com a América Latina, a África, a Ásia e os demais países do Sul Global.
Não se trata de hostilizar o povo norte-americano, que também sofre com as desigualdades e as aventuras de seus governantes. A crítica deve ser dirigida ao imperialismo e aos governos que transformam a superioridade econômica em instrumento de chantagem.
As tarifas representam mais uma tentativa de disciplinar uma nação soberana. O Brasil precisa responder sem bravatas, mas também sem submissão. Amizade entre países não significa obediência. Cooperação não significa renúncia à soberania. E nenhuma potência estrangeira tem o direito de escolher quem deve governar o povo brasileiro.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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