Comunicação na Amazônia: peculiaridades e desafios

Lúcio Carril discute os impactos do deserto de informação na Amazônia e defende a conectividade e a comunicação em línguas indígenas como instrumentos de cidadania.

Ilustração abstrata da Amazônia com elementos de comunicação e conectividade.

Por Lúcio Carril*

Publicado em: 22/07/2026 às 16:10 | Atualizado em: 22/07/2026 às 16:10

No Brasil, há 391 etnias e 295 línguas indígenas, com quase 475 mil falantes. A população indígena do país é de 1.694.836.

Os dados são do Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística (IBGE), no Censo Demográfico 2022 ─ Etnias e línguas indígenas.

A maioria dessas línguas são faladas por povos indígenas da Amazônia.

Em 2023, o estado do Amazonas reconheceu oficialmente 16 línguas indígenas como patrimônio cultural imaterial, tornando-as cooficiais, incluindo Nheengatu, Tukano, Baniwa e Yanomami.

Somente o estado do Amazonas tem 490. 935 pessoas indígenas. 149.080 vivem em territórios aldeados e 341.855 fora deles. A população indígena do Estado se divide em 259 etnias, com 168 línguas faladas.

O estado do Pará tem 222 etnias indígenas e 80.974 pessoas indígenas.

Segundo pesquisa realizada pela Universidade Federal do Pará, em 2021, no estado são faladas 34 línguas.

A Amazônia Legal tem 868.419 indígenas.

A Amazônia abrange nove países da América do Sul, com quase 7 milhões de km². Cerca de 60% está dentro do território brasileiro.

Esses números são necessários para mostrar o tamanho do desafio em fazer comunicação na Amazônia.

O desafio da comunicação em uma Amazônia multilíngue

Dados de 2025, do Atlas da Notícia, plataforma que estuda o deserto de informação midiática no Brasil, revelam que a região norte lidera em deserto de notícias no país. 42,9% do território não contam com cobertura jornalística local. Mesmo em locais com Internet, há ausência de jornalismo profissional. Em muitos casos, as rádios ainda usam autofalantes em postes.

Os principais veículos de comunicação são sediados nas capitais e os que existem nos municípios menores divulgam notícias institucionais.

Em 2025, 93 veículos de comunicação entraram em inatividade na Amazônia, com destaque para o estado do Amazonas, com 28 veículos inativos.

Essa realidade tem facilitado os crimes ambientais, com falta de cobertura local e ausência de informações.

No Brasil, em 2017, 63,1% dos municípios não tinham cobertura de sinal de internet ou energia, segundo levantamento feito pelo Censo Atlas da Notícia, projeto do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor). Em 2023, ainda eram 49%.

2.504 municípios não têm jornalismo local ativo, ou seja, 9 de cada 20 cidades brasileiras são desertos de notícias. São 20,7 milhões de pessoas que vivem nessas áreas.

É possível que na Amazônia a cobertura tenha melhorado, com programas oficiais de universalização da luz elétrica, mas o vazio de informação é uma realidade em muitas regiões e comunidades tradicionais, sejam elas indígenas, quilombolas, extrativistas ou ribeirinhas.

A existência de redes sociais não diminuiu o deserto de notícias, já que muitos municípios não contam com profissionais de comunicação ativos.

Informação, poder e desinformação na floresta

Considerando que a informação passa a existir quando alguém dela se apropria e lhe dá significado, a diversidade linguística da Amazônia torna a região um campo desafiador para profissionais da comunicação e para o Estado brasileiro.

A escrita é um meio valorativo que não determina toda comunicação/informação. Gestos, imagens, oralidade e outras várias manifestações podem criar uma relação de comunicação entre sujeitos.

Mas a comunicação/informação não se encerra em si mesmo. Além de ser uma necessidade de interação social, ela também é uma relação de poder.

A exclusão que cria o “deserto de informação midiática” e a manipulação da informação pode estar sendo usada dentro da Amazônia com o escopo de manter relações de poder verticalizadas, impedindo populações de terem acesso à informação de qualidade e criando campo fértil para as chamadas fake news.

O foco de facilitação criado pelo deserto de notícias é, justamente, a exploração ilegal da riquezas naturais da maior floresta tropical do mundo. A falta de informação e a desinformação se tornam instrumentos de dominação e proliferação dos crimes ambientais na região amazônica.

Há quem diga que o conceito de deserto de informação tem limitações epistemológicas, pois foi desenvolvido a partir de realidades urbanas, não aplicáveis à Amazônia, onde existe um outro ecossistema informativo.

Rádios comunitárias, igrejas, redes sociais, emissoras de TVs, organizações indígenas, aplicativos de mensagens compõem o universo da comunicação amazônica. Nesse caso, o fenômeno não poderia ser analisado com o uso de ferramentas teóricas aplicadas à mancha urbana.

Para aguçar a controvérsia.

Seria esse outro ecossistema comunicativo tão eficiente e rápido quanto o modelo que existe nas áreas urbanas? As comunidades indígenas, ribeirinhas, extrativistas e de agricultores ficariam fora, eternamente, do processo de desenvolvimento tecnológico da informação, fadados ao “sistema analógico”?

A velocidade da informação criada com o advento da Internet e suas possibilidades de amplo alcance, inclusive em territórios isolados geograficamente, precisam ser considerados como direitos cidadãos. Não é possível defender dois mundos, um conectado e outro sem acesso à informação ou com informação precarizada ou manipulada.

Conectividade como direito de cidadania

Outro dia, conversando com o sociólogo e ativista ambiental, Adilson Vieira, ele me falou sobre a realidade das comunidades quilombolas do Maranhão. Visitou algumas e o choque com a falta de qualidade de vida dessa gente é inevitável. Falei que não se trata de caso isolado. Na Amazônia não é diferente.

A Amazônia Legal tem 2.494 comunidades quilombolas em 632 territórios, que abrangem uma área de 3,6 milhões de hectares. O Instituto Socioambiental (ISA) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas revelam que o número de territórios é 280% maior que o registrado oficialmente. Maranhão e Pará têm as maiores presenças.

Essas comunidades protegem 92% da vegetação nativa em suas áreas.

Essas comunidades têm necessidade de conectividade com o mundo veloz da informação, seja para troca de experiências ou para universalizar suas reivindicações de cidadania.

O isolamento de comunicação não ajuda em nada a Amazônia e o Brasil.

É óbvio que existe outro sistema de comunicação na Amazônia. A própria interação social entre comunidades facilita essa troca. No entanto, estamos falando de acesso à tecnologia da informação, que não pode ficar restrito às áreas urbanas. As comunidades tradicionais têm o direito de escolher.

É preciso expandir a infraestrutura de conectividade na região, levando-a às pequenas comunidades, dentro da floresta e às margens dos rios.

É preciso produzir informações em línguas indígenas, abordar temas regionais, fazer inclusão digital, através do uso crítico das tecnologias, apoiar agências de notícias e veículos de comunicação que produzem conteúdos amazônicos.

Esses mecanismos de inclusão, além da promoção da cidadania, ajudarão na implantação de políticas públicas e no combate à desinformação.

O autor é sociólogo*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.