A economia em K de Trump

Plínio Coêlho analisa como tarifas, guerra e inflação aprofundam a economia em K de Trump, beneficiando os mais ricos e penalizando os trabalhadores.

A desigualdade cresce entre ricos e trabalhadores nos Estados Unidos.

Por Plinio Cesar Coêlho*

Publicado em: 23/07/2026 às 07:00 | Atualizado em: 22/07/2026 às 16:50

A economia norte-americana vive uma contradição que pode ser representada pela letra K. Na linha superior estão as famílias de renda elevada, maior escolaridade e proprietárias de ações, imóveis e outros ativos. Na linha inferior encontram-se os trabalhadores de menor renda e escolaridade, dependentes quase exclusivamente do salário e pressionados pelo aumento do custo de vida.

Não se trata apenas de uma desigualdade histórica. As decisões econômicas e militares do governo Donald Trump estão aprofundando essa divisão.

Os norte-americanos mais ricos continuam sendo favorecidos pela valorização da bolsa, dos imóveis e das participações empresariais. Para quem possui patrimônio financeiro, a alta dos ativos significa aumento da riqueza, maior acesso ao crédito e capacidade de preservar o consumo mesmo durante períodos de inflação.

Os dados do Federal Reserve mostram que as famílias norte-americanas possuem cerca de US$ 64,8 trilhões aplicados direta ou indiretamente em ações. Entretanto, essa riqueza está fortemente concentrada nos estratos superiores da sociedade. A valorização do mercado financeiro, portanto, não beneficia todos igualmente: favorece principalmente quem já possui capital.

Esse grupo forma a parte ascendente do K. São famílias que recebem salários maiores, possuem reservas, imóveis e investimentos e, em geral, apresentam níveis mais elevados de escolaridade. Mesmo quando os preços sobem, a valorização patrimonial funciona como uma proteção contra a inflação.

A desigualdade também aparece no consumo

A realidade é muito diferente na base da sociedade. Os trabalhadores de menor renda não possuem uma carteira de ações capaz de compensar o encarecimento dos alimentos, do aluguel, da gasolina, da eletricidade, dos medicamentos e dos seguros. Para eles, a inflação significa perda direta do poder de compra.

A diferença também aparece no mercado de trabalho. Dados oficiais mostram que o desemprego permanece menor entre pessoas com maior escolaridade. Em abril de 2026, quando a taxa geral estava em 4,3%, os adultos com formação universitária continuavam em situação muito mais favorável do que aqueles sem diploma universitário ou sem conclusão do ensino médio.

A economia em K também pode ser observada no consumo. Desde 2023, as famílias norte-americanas com renda superior a US$ 125 mil ampliaram seus gastos reais de maneira muito mais intensa do que as famílias com renda inferior a US$ 40 mil. Enquanto os consumidores mais ricos são sustentados pelos ganhos no mercado acionário, os mais pobres recorrem à poupança e ao crédito para pagar despesas básicas.

Essa separação não surgiu por acaso. Ela vem sendo agravada pelas escolhas de Donald Trump.

A primeira dessas escolhas foi a política tarifária. Trump elevou tarifas sobre produtos provenientes de diversos países e, em fevereiro de 2026, impôs uma sobretaxa temporária de 10% sobre grande parte das importações norte-americanas. Também manteve ou ampliou tarifas específicas sobre produtos industriais, aço, alumínio e cobre.

As tarifas de Trump alimentam a inflação

Trump apresenta as tarifas como se fossem tributos pagos pelos países estrangeiros. Isso é enganoso. A tarifa é cobrada na entrada da mercadoria nos Estados Unidos e paga inicialmente pelo importador norte-americano. Esse custo pode ser absorvido parcialmente pela empresa, mas normalmente é transferido aos preços finais.

O próprio Federal Reserve estimou que as tarifas implementadas até novembro de 2025 elevaram em 3,1% os preços dos bens que compõem o núcleo da inflação. Segundo o estudo, elas explicaram todo o excesso de inflação dessa categoria em comparação com o período anterior à pandemia e acrescentaram aproximadamente 0,8% ao núcleo geral dos preços ao consumidor.

Portanto, não se pode tratar a inflação norte-americana como um fenômeno inteiramente externo ou inevitável. Uma parcela importante foi produzida dentro da Casa Branca. Ao aumentar o custo dos produtos importados, Trump encareceu máquinas, matérias-primas, componentes e bens de consumo utilizados pela própria economia norte-americana.

As tarifas não afetam apenas os produtos que chegam às lojas. Quando uma empresa paga mais caro por aço, peças eletrônicas, máquinas ou componentes estrangeiros, seu custo de produção aumenta. Esse acréscimo se espalha por toda a cadeia econômica e acaba incorporado ao preço pago pelo consumidor.

A segunda responsabilidade de Trump está na guerra contra o Irã. O conflito iniciado com ataques norte-americanos e israelenses contra alvos iranianos atingiu diretamente uma das regiões mais importantes para o abastecimento energético mundial.

Em julho de 2026, Trump autorizou novos ataques aéreos contra o território iraniano, ampliando uma guerra que já ameaça instalações, navios, refinarias e rotas de transporte de petróleo.

A guerra pressiona os preços da energia

O centro dessa crise é o Estreito de Ormuz, passagem por onde circula aproximadamente um quinto do petróleo comercializado mundialmente. O bloqueio, os ataques e a insegurança sobre o transporte marítimo pressionaram as cotações internacionais. Em julho, o petróleo Brent voltou a superar US$ 84 por barril, enquanto o mercado passou a considerar a possibilidade de preços ainda maiores caso a guerra se amplie.

O petróleo não é apenas o combustível utilizado nos automóveis. Ele participa de praticamente toda a estrutura de custos da economia moderna. Está no transporte de mercadorias, na agricultura, na produção industrial, na petroquímica, nos plásticos, nos fertilizantes, na aviação e na geração de energia.

Quando o petróleo sobe, o custo do transporte aumenta. Quando o transporte aumenta, os alimentos, os produtos industriais e os serviços também ficam mais caros. A guerra, portanto, entra no supermercado, na conta de energia, no posto de gasolina e no orçamento das famílias.

Em junho de 2026, a inflação acumulada em 12 meses nos Estados Unidos chegou a 3,5%, acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve. Os preços da energia aumentaram 15,7%, enquanto a gasolina registrou elevação de 26,7%. Os alimentos subiram 3% no mesmo período.

O próprio Federal Reserve reconheceu que a inflação foi impulsionada pelas tarifas anteriores e pela elevação dos preços da energia decorrente das restrições ao fornecimento de petróleo após o início do conflito no Oriente Médio. As expectativas de inflação para os 12 meses seguintes também aumentaram, passando de 3,4% em fevereiro para 4,6% em junho.

Trump não é espectador da inflação

Não é correto, portanto, apresentar Trump como um simples espectador de acontecimentos internacionais. Ele não apenas herdou a inflação. Suas decisões ajudaram a produzi-la.

Foi Trump quem escolheu ampliar as tarifas sobre produtos estrangeiros. Foi seu governo que promoveu e autorizou ataques contra o Irã. Foi sua estratégia militar que aprofundou a instabilidade em uma região fundamental para o fornecimento mundial de petróleo.

Existem, evidentemente, outros fatores que interferem nos preços. A inflação também é influenciada pelo mercado imobiliário, pelas cadeias produtivas, pelos salários, pela demanda e por conflitos anteriores. Mas isso não elimina a responsabilidade do presidente norte-americano pelas decisões que deliberadamente elevaram o custo das importações e agravaram a crise energética.

O peso dessas decisões não é distribuído igualmente. As famílias ricas também pagam mais caro pela gasolina e pelos alimentos, mas possuem patrimônio e renda suficientes para absorver os aumentos. Além disso, podem ser beneficiadas pela valorização das ações de empresas de petróleo, defesa, tecnologia e infraestrutura.

Na base do K, porém, não existe essa compensação. As famílias de menor renda destinam uma parcela muito maior do orçamento à moradia, à alimentação, à energia e ao transporte. Quando esses itens aumentam, precisam reduzir outras despesas, contrair dívidas ou diminuir o próprio consumo de bens essenciais.

Surge, assim, a economia em K de Trump: os proprietários de ativos continuam subindo, enquanto os trabalhadores que vivem do salário descem.

Na parte superior, a bolsa, os imóveis e o patrimônio financeiro protegem os mais ricos. Na parte inferior, as tarifas e a guerra corroem o poder de compra dos trabalhadores. O mesmo governo que favorece a valorização dos ativos aumenta os preços pagos por quem não possui patrimônio.

Os indicadores agregados podem continuar apresentando crescimento econômico e resistência do consumo. Mas esses números escondem uma pergunta fundamental: quem está crescendo e quem está pagando a conta?

A economia norte-americana pode produzir mais riqueza e, ao mesmo tempo, ampliar a insegurança de milhões de famílias. Pode registrar valorização recorde das bolsas enquanto trabalhadores reduzem a alimentação, utilizam o cartão de crédito para sobreviver e perdem poder aquisitivo.

A letra K representa exatamente essa ruptura. Uma linha sobe porque possui patrimônio. A outra desce porque depende do salário.

E Trump não é uma figura secundária nesse processo. Por meio das tarifas e da escalada militar contra o Irã, seu governo transformou escolhas políticas em aumento de preços. A inflação que pesa sobre as famílias norte-americanas tem causas internacionais, mas também possui endereço político: a Casa Branca.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

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