Fiesp adere à extrema direita bolsonarista e põe indústria em risco

Entidade paulista culpa Lula pelo tarifaço de Trump e, em ano eleitoral, abandona a defesa da soberania que havia feito em 2025.

Fiesp adere à extrema direita bolsonarista e põe indústria em risco

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 20/07/2026 às 09:52 | Atualizado em: 20/07/2026 às 09:52

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) decidiu entrar diretamente na disputa eleitoral de 2026 ao responsabilizar o governo Lula da Silva pelo novo tarifaço imposto unilateralmente pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.

Em nota divulgada após a confirmação da sobretaxa de 25%, a entidade comandada por Paulo Skaf reproduziu parte do discurso da extrema direita brasileira e do governo de Donald Trump, segundo o qual a punição comercial seria consequência do comportamento diplomático de Lula.

A posição chamou a atenção porque a própria Fiesp admite que a tarifa prejudica a competitividade das empresas brasileiras, ameaça exportações de produtos industrializados e cria vantagens para concorrentes estrangeiros no mercado norte-americano.

Ainda assim, em vez de concentrar sua reação na decisão de Trump, a federação preferiu responsabilizar o governo do país que sofreu a sanção.

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Barões da pisadinha

Em artigo publicado no ICL Notícias, o jornalista e escritor Xico Sá compara os antigos “barões da indústria” aos “barões da pisadinha”, numa referência irônica ao comportamento político da Fiesp sob a presidência de Skaf.

Para Xico Sá, a entidade deixou de agir como representante dos interesses produtivos nacionais para bajular Trump e participar da ofensiva política contra o Brasil.

O articulista chama atenção para a contradição de empresários que se apresentam como defensores da economia, mas apoiam uma narrativa utilizada para justificar uma medida capaz de provocar perdas justamente às empresas brasileiras.

A sobretaxa, afinal, não é paga pelo governo Lula. Seus efeitos recaem sobre indústrias, exportadores, trabalhadores e cadeias produtivas que podem perder contratos, reduzir margens, cortar investimentos e fechar postos de trabalho.

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Nota entra na campanha

O caráter político-eleitoral da manifestação aparece no próprio vocabulário escolhido pela Fiesp.

A entidade acusa o governo brasileiro de criar “ruídos diplomáticos”, fazer críticas personalistas, utilizar discursos eleitorais e promover um desalinhamento político com Washington.

Essa formulação coincide com a tese defendida pelo governo Trump, por dirigentes da extrema direita brasileira e pela família Bolsonaro, que tentam transferir para Lula a responsabilidade por uma decisão tomada pelos Estados Unidos.

A manifestação também foi interpretada como eleitoral pelo coordenador da campanha de reeleição de Lula, Marco Aurélio de Carvalho. Ele classificou a nota como “vergonhosa” e afirmou que a instrumentalização da Fiesp deveria preocupar principalmente as empresas associadas à entidade.

Segundo Carvalho, a manifestação dá força à argumentação norte-americana e pode ser usada para legitimar ataques à soberania brasileira.

Skaf possui trajetória partidária e eleitoral. Foi candidato três vezes ao Governo de São Paulo, sempre se colocando como adversário dos governos petistas. Em 2026, voltou ao comando da principal representação industrial paulista, o que reforça a leitura de que a nota ultrapassa o campo econômico e entra no confronto eleitoral.

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Prejuízo aos representados

O alinhamento político ocorre mesmo diante do potencial prejuízo às próprias empresas representadas pela Fiesp.

O mercado dos Estados Unidos é um dos principais destinos dos produtos brasileiros de maior valor agregado. São justamente os bens industrializados que mais dependem de planejamento, contratos de longo prazo, escala produtiva e previsibilidade comercial.

Com uma tarifa adicional de 25%, produtos brasileiros ficam mais caros diante dos fabricados em países não atingidos pela mesma sobretaxa.

Entre os possíveis efeitos estão:

  • perda de competitividade;
  • substituição de fornecedores brasileiros;
  • redução de preços e das margens das empresas;
  • renegociação ou cancelamento de contratos;
  • queda nas exportações;
  • redução de investimentos;
  • risco de demissões.

A própria Fiesp reconhece que o novo “pedágio” se soma à carga tributária e aos juros elevados enfrentados pelas empresas nacionais. A entidade, porém, utiliza esse diagnóstico para atacar o governo brasileiro, não para responsabilizar prioritariamente quem criou a nova barreira comercial.

Mudança de discurso

A posição atual contrasta com a reação adotada pela Fiesp em julho de 2025, quando Trump anunciou uma tarifa de 50% contra produtos brasileiros.

Na ocasião, a federação afirmou que a soberania nacional era inegociável e observou que justificativas não econômicas não poderiam servir para romper regras comerciais e normas do direito internacional.

A Fiesp também lembrou que os Estados Unidos mantinham superávit nas relações comerciais e de serviços com o Brasil, afastando a alegação de que os norte-americanos seriam prejudicados pela relação bilateral.

Um ano depois, em meio à campanha presidencial, a defesa da soberania desapareceu do centro do discurso.

A responsabilidade pela agressão comercial deixou de ser atribuída prioritariamente ao governo que criou a tarifa e passou a ser lançada sobre o governo brasileiro.

A mudança não é apenas semântica. Ela revela a opção da direção da Fiesp por entrar no conflito político ao lado da extrema direita, mesmo quando isso significa fornecer argumentos ao país que está prejudicando seus próprios associados.

O que sustenta a Fiesp

Na nota, a federação lamenta a aplicação da sobretaxa e afirma que a decisão prejudica o Brasil por atingir exclusivamente os produtos nacionais, reduzindo sua competitividade diante dos concorrentes globais.

Apesar de reconhecer o caráter unilateral da medida, a entidade sustenta que:

  • o governo brasileiro produziu ruídos diplomáticos desnecessários;
  • críticas pessoais e discursos eleitorais afetaram as relações bilaterais;
  • teria ocorrido um desalinhamento político com Washington;
  • a retaliação poderia ter sido evitada por meio de uma condução técnica e pragmática;
  • a Fiesp teria buscado essa alternativa em audiências e contatos realizados nos Estados Unidos;
  • a tarifa representa um custo adicional para empresas já pressionadas por impostos e juros elevados;
  • a entidade continuará mantendo contatos empresariais para tentar reverter a cobrança ou ampliar a relação de produtos isentos.

A íntegra da manifestação confirma que a Fiesp combina uma advertência econômica verdadeira, que é o dano à indústria, com uma conclusão essencialmente política: a responsabilização do governo Lula pela decisão de Trump.

Escolha política

Entidades empresariais têm legitimidade para criticar governos, políticas econômicas e estratégias diplomáticas. O que está em discussão, neste caso, é a escolha de uma representação industrial por reproduzir a justificativa do governo estrangeiro que pune suas próprias empresas.

Ao fazer isso em plena campanha eleitoral, a Fiesp corre o risco de colocar os interesses políticos de sua direção acima dos interesses concretos das indústrias que deveria representar.

Como indica a crítica de Xico Sá, os antigos barões da indústria parecem mais interessados na “pisadinha” eleitoral do que na defesa firme das fábricas, dos empregos e da soberania econômica brasileira.

Foto: reprodução/Carta Capital