Toadas do Garantido dão nomes científicos a gafanhotos da Amazônia

Pesquisa liderada por cientistas do INPA batiza novas espécies de gafanhotos amazônicos com nomes inspirados em toadas do Garantido, unindo biodiversidade, cultura indígena e tradição do Festival de Parintins.

Toadas do Garantido dão nomes científicos a gafanhotos da Amazônia

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 28/07/2026 às 06:16 | Atualizado em: 28/07/2026 às 07:48

A revista científica internacional Zootaxa (Auckland, na Nova Zelândia), especializada em zoologia sistemática, publicou, em 23/3, um estudo que descreve quatro novos gêneros e nove novas espécies de Proscopiidae, um grupo de gafanhotos pouco conhecido pela ciência e bastante diferente dos gafanhotos mais populares.

Entre as novidades descritas estão Kamara kratxatxa e Proscopia caacy, nomes científicos inspirados nas toadas do boi-bumbá Garantido Kamara (2026), gafanhoto-onça na língua hixkaryana, e Caacy (2011), Mãe da Mata, na língua tupi-guarani.

A pesquisa foi conduzida pela cientista amazonense Larissa Lima de Queiroz, doutora formada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em parceria com os pesquisadores doutores José Albertino Rafael (INPA) e Raphael Aquino Heleodoro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A denominação das duas novas espécies de gafanhotos amazônicos foi sugerida por Larissa, torcedora do boi-bumbá Garantido, com a concordância de seus parceiros de estudo. A iniciativa entrelaça afeto, ciência, biodiversidade e culturas amazônicas.

A construção do nome contou com a colaboração de João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, incorporando elementos da língua e da cultura indígenas à tipificação científica.

A escolha desses nomes reforça que a ciência também pode valorizar a história, a cultura e os povos da Amazônia, eternizando palavras de suas línguas na literatura científica universal.

Diversidade cultural

Larissa de Queiroz, nascida em Manaus (AM), revelou que nunca foi a Parintins, porém cresceu em contato com a cultura do boi-bumbá, na família e na escola. Tornou-se, assim, uma ouvinte do gênero musical toada que, para ela, é um dos meios eficazes de divulgação da cultura amazônica.

“Ouço toadas tanto do Garantido quanto do Caprichoso, mas, como torço pelo Garantido, ouço mais as do Garantido”, afirmou a pesquisadora.

Ela acentuou que a homenagem está embasada no fato de que os bois-bumbás, por intermédio das toadas, além do entretenimento, também produzem conhecimento.

“Acho que o próprio boi não entende que, quando seus artistas fazem uma toada, ensinam as pessoas palavras das línguas indígenas da região”, comentou Larissa.

Como exemplo, ela citou que não sabe como se diz e se escreve onça em japonês, mas descobriu que em Hixkaryana se chama kamara. “Aí, a gafanhoto fêmea que homenageei com o nome kamara kratxatxa parece uma oncinha marrom com pintinhas pretas. Kratxatxa significa gafanhoto na língua Hixkaryana”, esclareceu.

Larissa disse ainda que Proscopia tem a ver com a espécie do inseto e caacy significa mãe-da-mata em língua tupi-guarani. Na toada, caacy se refere a um espírito protetor das florestas.

“Como são insetos muito camuflados, tão camuflados que ficam ali como um espírito da floresta, decidi usar a palavra caacy, que significa mãe-da-floresta. Isso já foi usado pela ciência antes, não com os nomes indígenas, mas existe um grupo que se chama Phasmatodea, que vem de Phantasma, porque eles são muito camuflados. Então juntei nomes que existiam com os que aprendi nas toadas”, explicou.

Na condição de pesquisadora da Amazônia, Larissa salientou que tem interesse em usar palavras indígenas na composição dos nomes das espécies que ela descobre.

A cientista informou que, geralmente, as descobertas científicas da sua área de pesquisa têm palavras em latim ou grego para universalizá-las, embora hoje, com a presença da internet em todo o mundo, esse procedimento não seja obrigatória.

Festival de Parintins

Os bois-bumbás Garantido e Caprichoso são protagonistas do festival folclórico de Parintins (AM), festa popular midiática que acontece, anualmente, no fim da última semana de junho, desde 1992. O primeiro festival foi realizado em 1965 e, antes, tinha os dias 28, 29 e 30 de junho como datas fixas.

O festival atrai ao menos 100 mil turistas que disputam lugares no bumbódromo, um teatro a céu aberto, para assistir aos espetáculos dos dois bumbás, que representam as culturas dos povos originários da Amazônia.

A toada, gênero musical criado pelos artistas dos dois bois-bumbás, inspiram-se nos mitos indígenas, nos seres espirituais dos rios e das florestas e no cotidiano amazônico.

As duas toadas narram histórias do pensamento indígena que apontam para o entendimento de que seres vivos e não vivos compartilham o mesmo espaço, o mesmo planeta. A homenagem científica veio para reconhecer a importância do boi-bumbá parintinense como meio de reafirmar que natureza e cultura estão interrelacionadas.

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Fotos: divulgação