Terra de crianças e mulheres
Publicado em: 14/10/2009 às 00:00 | Atualizado em: 14/10/2009 às 00:00
Perto de completar seis anos de existência, desde a ocupação de dezembro de 2003, o Parque Residencial São Pedro embala uma história de resistência. E aqui a expressão resistência é sinônimo de reação à força opressora traduzida na ação dos políticos de várias matizes, habituados a tratar os pobres como depósitos de migalhas oferecidas por eles em troca de votos e na omissão dos representantes do Executivo estadual e municipal naquilo que é estritamente de responsabilidade desse poder.
No bairro, moram aproximadamente 6 mil famílias (perto de 30 mil pessoas). As crianças são a fartura e a denúncia viva do descaso oficial. A maioria delas estuda em locais absurdamente abafados e de estrutura brutalizada. Alguns locais-escolas são chamados de ‘presidiozinhos’. Algumas dezenas de crianças estão fora da escola.
Na área da Saúde, não há estrutura de atendimento. A prevenção é feita apenas por meio de mutirões. O hospital mais próximo está a 15km do bairro.
A resistência se realiza na luta dos moradores, a cada passo dado nessa difícil caminhada da comunidade para fazer valer a justiça e a paz em um universo minado. Várias famílias rejeitam as negociatas dos compradores de votos e têm a coragem de construir uma outra estrada, rejeitando o papel de miseráveis agradecidos pelo sopão ou porque fizeram, por alguns minutos, parte de uma atormentada plateia de TV. Elas brigam por mudanças de fato.
Uma das conquistas do São Pedro, do Jesus Me Deus, do Riachuelo, é o Movimento Nacional de Luta pela Educação (Monale). Nascido naquele território do abandono, promove vidas e avançou para outras cidades brasileiras.
Ontem, durante conversa com estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em visita à comunidade, Antônio Fonseca, um dos coordenadores do Monale e dos fundadores do bairro, declarou, como lembrança providencial para a história: “Essa é uma terra conquistada pelas crianças e as mulheres”.
*Jornalista, professora do Curso de Comunicação Social da Ufam.
