O castigo de minha sogra
A crônica tratava das frutas que eu colocava para atrair pipiras
Publicado em: 19/06/2010 às 00:00 | Atualizado em: 15/06/2021 às 17:31
Neuton Corrêa*
Enquanto minha sogra contava histórias, eu evitava sair do quarto. Aliás, acordei com aquele bochicho e com o cheiro de frito de crueira na cozinha. Ela conversava com a parentada do interior que vira e mexe está em casa. Notei que queria mostrar suas aventuras aqui na capital. Gabava-se por conhecer cada rota de ônibus e andar sozinha por aí à procura dos conhecidos.
Naquela conversa, puxou um fato que eu sabia por alto, mas ela revelava detalhes que deixavam o episódio ainda mais interessante. Mas, até ali, eu não dava atenção ao acontecimento para não decorar e me sentir obrigado a contar para vocês.
Sabe por quê, amigos do busão, não queria aprender a história? No ano passado, quase a matei do coração. Não sei se vocês lembram: escrevi uma crônica chamada “Eu, minha sogra e as pipiras”. Pois não é que ela leu! No primeiro parágrafo, foi bater no quarto. Sua pressão chegou à casa dos vinte.
Quem a socorreu foi meu filho, que ainda tinha 13 anos de idade. Socorreu da melhor forma possível. Ele leu a história e explicou para ela: “Não, vovó, ele não está zombando da senhora, não. Ele está falando mal dele mesmo. Ele disse que não manda nada em casa e quem manda é a senhora”.
Bastou isso para a pressão voltar ao normal.
A crônica tratava das frutas que eu colocava para atrair pipiras. Anos depois, no entanto, vim descobrir que minha sogra escondia e comia as frutas que eu deixava para os passarinhos. Por causa das pipiras, até cortou os mamoeiros que deixei crescer no quintal e dois pés de bananeira que plantei para alimentá-las. Então, depois de tudo isso, resolvi, literariamente, homenageá-la.
Ah, sim! Bem, como expliquei na crônica anterior sobre ela, minha sogra chama-se Dailsa, mas é conhecida pela alcunha de Dinoca e Coca (para íntimos). Outras pessoas, no entanto, por não entenderem os agrados, chamam-na de Bidoca e ainda aparecem uns para tratá-la de Bicoca ou Vinoca.
Então, naquele dia que me acordou conversando com as amigas, ela contava que entrou no ônibus perguntando se o busão passava pela Avenida Constantino Nery: “Sim, passa, sim, passa pelo (clube) Municipal”. E ela contou que reagiu assim: “Kenga é a tua mãe, seu…”. E continuou:
– Aí, na hora que fui me sentar no lugar dos idosos, tinha um bêbado.
E um dos interlocutores da cozinha indagou:
– E aí?
– Aí, eu tirei ele de lá. Fresquei com ele: “Bora, bora, sai daí”. Pois não é que ele se “astreveu” de me dizer: “Ah, minha tia, procure outra cadeira. Não vê que tô dormindo”.
– E ele saiu? – insistiu uma voz.
E minha sogra:
– Eu disse para ele: Quer dormir, vai para tua casa. Lugar para dormir é em casa e não no ônibus. Aí, mana, ele saiu.
– E daí, Coca?
Ela respondeu:
– Pois não é, mana, parece um castigo: Eu me sentei na cadeira e dormi. O ônibus passou da entrada do São Jorge, foi no Centro e voltou e eu não acordei. Aí, quando eu já estava aqui na Cidade Nova, o motorista ainda me acordou assim: ‘Lugar de dormir é em casa, né, tia’.
Não resisti ao final da história e saí do quarto para rir com elas.
*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

