Pensando sobre jornal
Publicado em: 20/04/2011 às 00:00 | Atualizado em: 20/04/2011 às 00:00
Ivânia Vieira*
Fazer jornal é testar em poucos minutos as teorias e as práticas em nome da notícia boa; é aprender, a cada dia, a superar a rotina que acostuma o olhar e congela nossa percepção em favor da acomodação. É também sair do agrado fácil e enfrentar o mundo dos conflitos.
Fazer jornal não tem salto alto e sim a necessidade de andanças, mesmo que o andar nas ruas seja um exercício cada vez menos praticado por jornalistas. É angústia e alegria quase sempre solitárias vividas em um tempo acelerado, de espaço apertado e cioso por novidade (nem sempre é o olhar novidadeiro cobrado por Paulo Freire como sinal de uma existência com a marca de sujeito portador da liberdade e é mais de agenciamento bem combinado que reduz cidadania e faz crescer o número de consumidores).
Fazer jornal é apostar numa marca maior – alimentada por centenas de gestos e condutas realizados numa arena cada vez mais diversificada e não menos voraz – que só vai se completar se compreender e tornar público os males porque passam as populações e/ou os setores mais fragilizados da sociedade.
E é por isso um ato de esperança aqui entendida como energia capaz de gerar movimentos locais, nacionais, mundiais, de saber que há uma razão para amanhecer e para caminhar, de cabeça erguida.
Celebrar a vida duradoura de um jornal é celebrar também muitas outras vidas geradas e crescidas em torno dela e é denunciar as mortes injustas.
No discurso gráfico de cada página residem confrontos e uma impressão digital à espera de serem desvendados. Que as brechas nos ensinem a fazê-la plural como ontem, por todo o dia, aconteceu nos vários espaços do prédio deste jornal. Eram muitas vozes, de gente de paletó e de gente de sandálias de borracha.
*Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.
