Gestor de conflitos
Publicado em: 12/11/2012 às 00:00 | Atualizado em: 12/11/2012 às 00:00
Wilson Nogueira*
A campanha eleitoral reafirma claramente: a cidade é o lugar dos conflitos. Grupos étnicos, religiosos, econômicos, políticos e de gêneros apresentam suas causas e reivindicações mais urgentes. No fundo, cada qual quer se manter ou se inserir como força social nos domínios do poder legitimado pelas urnas. Mas os confrontos e interesses não se encerram na eleição. Logo, é recomendável que o prefeito seja um gestor de conflitos.
Não me refiro ao conflito em situações extremadas. Penso o conflito no âmbito das lutas sociais em favor da ecologia citadina, cuja meta é tornar a cidade um espaço literalmente urbano. Poucas cidades no mundo escapam da degradação ambiental e da redução da condição humana. De Calcutá (Índia) a Manaus, elas refletem, na sua geografia, os impactos da globalização de mão única. As cidades se projetam permeadas por raras ilhas de riqueza arrodeadas por vastas regiões de pobreza.
A persistência da partilha desigual da riqueza – tanto pela distribuição quanto dos serviços e equipamentos públicos – torna as cidades insuportáveis em qualidade de vida. Instala-se, por meio dessa prática perversa, uma situação análoga a dos tempos medievais, quando os poderosos e abastados se instalavam em seus castelos cercados por muralhas e vigiados por guardas especializadas. Os condomínios de luxo são as versões modernas dos castelos medievais. Essas cidades dentro da cidade caracterizam o apartheid gerado na lógica de um sistema econômico excludente.
Na outra ponta desse sistema, posicionam-se as forças sociopolíticas que propõem a globalização que horizontalize os resultados dos benefícios econômicos em escala planetária. Nas sociedades democráticas, elas se manifestam nas reivindicações das associações de bairros, nos sindicatos, nas confissões religiosas, nos partidos políticos, nas expressões artísticas, nos movimentos éticos e nas diversas “tribos” urbanas. O gestor público precisa ouvi-las com a devida atenção. Mais que isso: precisa dialogar com elas, para que as suas ações atinjam resultados em favor do coletivo.
As vozes que ecoaram na campanha eleitoral atestam, por exemplo, que Manaus espera resolver problemas que ultrapassaram os limites do suportável. Entre tantos outros, estão relacionados os da mobilidade urbana (engarrafamentos, transporte coletivo ineficiente, falta de ciclovias etc), do abastecimento de água tratada e energia elétrica; da coleta e tratamento do lixo doméstico, industrial e hospitalar; do destino adequado dos efluentes urbanos e das moradias subumanas. São problemas que só têm se agravado desde a década de 1970, principalmente por falta de planejamento urbano.
A ideia que se tem, de imediato, é a de que os gestores da cidade ignoraram, por incompetência ou má-fé, os impactos do êxodo rural e da migração estimulados pelo comércio e pela indústria da Zona Franca. O resultado do descaso são milhares de pessoas a viver em bairros sem água, sem luz, sem asfalto, sem postos de saúde e sem escola. Ao mesmo tempo, a população, agora de um modo geral, sente que o mínimo de qualidade de vida esvai-se, em velocidade crescente, no trânsito congestionado, nos ônibus superlotados e na violência que ronda as ruas e os lares.
Os especialistas em urbanismo apelam a toda hora: as cidades de porte médio também caminham para a tensão e estresse dos grandes conglomerados urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Por isso, não custa nada reforçar que Manaus clama por medidas corretivas e preventivas urgentes. Não dá mais para esperar que os bairros periféricos sejam ocupados por traficantes e milícias, para só então ser recuperados pelo poder público como trunfo político eleitoreiro; de igual modo, não é possível esperar que as pessoas enlouqueçam no trânsito, para só então tratá-lo como uma questão de saúde pública.
Manaus aguarda um prefeito que tenha sensibilidade e inteligência para transformar conflitos de interesses em soluções que fortaleçam a sua unidade na diversidade, fator que entrelaça e sustenta a convivência social respeitosa entre diferentes. E que não lhe falte humildade. Afinal, a mania de grandeza e o destempero já fizeram muito mal a esta cidade.
*O autor é jornalista
